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	<title>Cartas de Inglaterra</title>
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	<description>Crónicas de Eça de Queirós, que no Século XIX escrevia observações tão acertadas, que valem ainda para os dias de hoje. Humor fino, certeiro e oportuno, para fazer cócegas no cérebro.</description>
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		<title>Cartas de Inglaterra</title>
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		<title>Os Ingleses no Egipto &#8211; I</title>
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		<pubDate>Thu, 03 Feb 2011 18:51:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>majorpipe</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Todos os que conhecem a história contemporânea de Portugal e de outros curiosos países constitucionais sabem bem o que significa esta deliciosa frase: «El-rei está coacto!» Isto quer dizer que sua majestade se acha em palácio, cercado de uma populaça carrancuda que agarrou em chuços, arranjou uma bandeira no alto de um pau e vem [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartasdeinglaterra.wordpress.com&amp;blog=10527508&amp;post=68&amp;subd=cartasdeinglaterra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em><a href="http://cartasdeinglaterra.files.wordpress.com/2011/02/egipto.jpg"><img src="http://cartasdeinglaterra.files.wordpress.com/2011/02/egipto.jpg?w=300&#038;h=196" alt="" title="As raízes de Mubarak." width="300" height="196" class="aligncenter size-medium wp-image-70" /></a></p>
<p><em><strong>Todos os que conhecem a história contemporânea de Portugal e de outros curiosos países constitucionais sabem bem o que significa esta deliciosa frase: «El-rei está coacto!» Isto quer dizer que sua majestade se acha em palácio, cercado de uma populaça carrancuda que agarrou em chuços, arranjou uma bandeira no alto de um pau e vem impor esta fórmula prodigiosamente desagradável para el-rei: diminuição de autoridade régia e aumento de liberdade pública&#8230;</p>
<p>Se el-rei conserva por trás do palácio alguns regimentos fiéis, enverga nesse momento a farda de generalíssimo e manda acutilar o seu povo: se desgraçadamente, porém, os soldados estão unidos aos cidadãos, então el-rei declara-se coacto, pede a um rei vizinho, mais forte e menos atarantado, que lhe mande uma divisão, a restabelecer a ordem – isto é, a assegurar a sua majestade a sua soma intacta de autoridade régia, dispersando a tiro a tentativa de liberdade pública. Isto hoje já realmente se não usa na Europa: mas no Oriente, ao que parece, é ainda um método muito decente de acalmar os descontentamentos nacionais.</strong></em></p>
<p>Continuar a ler:<br />
<span id="more-68"></span></p>
<p>O Que Resta de Alexandria &#8211; A Estreia de Arabi Paxá &#8211; Algemas ao Café</p>
<p>Até há cinco ou seis semanas Alexandria podia ser descrita no estilo convidativo dos Guias de viajantes como uma rica cidade de duzentos e cinquenta mil habitantes, entre europeus e árabes, animada, especuladora, próspera, tornando-se rapidamente uma Marselha do Oriente. Nenhum Guia, porém, por mais servilmente lisonjeiro, poderia chamar-lhe interessante.</p>
<p>Apesar dos seus dois mil anos de idade, de ter sido, depois de Atenas e Roma, o maior centro de luxo, de letras e de comércio que floresceu no Mediterrâneo, a velha cidade dos Ptolomeus não possuía hoje nenhum monumento do seu passado, a não contarmos, ao lado de um velho cemitério muçulmano, uma coluna erigida outrora por um prefeito romano em honra de Diocleciano, conhecida pelo sobrenome singular de Pilar de Pompeu, e mais longe, estendido num areal, um obelisco faraónico do templo de Luxor, que gozava a grotesca alcunha de Agulha de Cleópatra. E esta mesma relíquia está agora em Londres, no aterro do Tamisa, pousada numa peanha de bronze, alumiada pela luz eléctrica, aturdida pelo estrondo dos comboios&#8230;</p>
<p>Os bairros europeus de Alexandria quase recentes (há cinquenta anos, antes de Mehemet Ali dar o impulso à sua reedificação, a grande metrópole que espantava o califa Omar estava reduzida a uma aldeia vivendo da pesca e do comércio de esponjas) compunham-se principalmente de uma vasta praça, a famosa Praça dos Cônsules, orgulho de todo o Levante, e de ruas largas, com nomes franceses, estuque francês nas fachadas, tabuletas francesas nas lojas, cafés franceses, lupanares franceses – como um faubourg de Bordéus ou de Marselha transportado para o Egipto e empenachado aqui e além de palmeiras.<br />
A parte árabe da cidade não tinha nenhum pitoresco oriental: eram arruamentos quase direitos, com casebres lavados a cal e terminando em terraço, pousados num solo, meio de terra e meio de areia, que a menor brisa do mar espalhava em nuvens pelo ar. Cidade feia à vista, desagradável ao olfacto, reles, insalubre, Alexandria visitava-se à pressa, ao trote de uma tipóia, e depressa se apagava da memória, apenas o comboio do Cairo deixava a estação e se ausentavam, entre as primeiras culturas do Delta, ao longo dos canais, as filas de íbis brancos, os mais velhos habitantes do Egipto, outrora deuses, ainda hoje aves sagradas&#8230;</p>
<p>Todavia, tal qual era. Alexandria, com a sua baía atulhada de paquetes, de navios mercantes e de navios de guerra; com os seus cais cheios de fardos e de gritaria, os seus grandes hotéis, as suas bandeiras flutuando sobre os consulados, os seus enormes armazéns, os seus centenares de tipóias descobertas, os seus mil cafés-concertos e os seus mil lupanares; com as suas ruas, onde os soldados egípcios, de fardeta de linho branco, davam o braço à marujada de Marselha e de Liverpul, onde as filas de camelos, conduzidos por um beduíno de lança ao ombro, embaraçavam a passagem dos trâmueis americanos, onde os xeques, de turbante verde, trotando no seu burro branco, se cruzavam com as caleches francesas dos negociantes, governadas por cocheiros de libré – Alexandria realizava o mais completo tipo que o mundo possuía de uma cidade levantina, e não fazia má figura, sob o seu céu azul-ferrete, como a capital comercial do Egipto e uma Liverpul do Mediterrâneo.</p>
<p>Isto era assim há cinco ou seis semanas.<br />
Hoje, à hora em que escrevo, Alexandria é apenas um imenso montão de ruínas.</p>
<p>Do bairro europeu, da famosa Praça dos Cônsules, dos hotéis, dos bancos, do escritórios das companhias, dos cafés-lupanares, resta apenas um confuso entulho sobre o solo e, aqui e além, uma parede enegrecida que se vai aluindo.<br />
Pela quarta vez na história, Alexandria deixou de existir.</p>
<p>Tratando-se do Egipto, terra das antigas maldições, pode-se pensar, em presença de tal catástrofe, que passou por ali a cólera de Jeová – uma dessa cóleras de que ainda estremecem as páginas da Bíblia quando o Deus único, vendo uma cidade cobrir-se da negra crosta do pecado, corria de entre as nuvens a cicatrizá-la pelo fogo como uma chaga viva da Terra. Mas desta vez não foi Jeová. Foi simplesmente o almirante inglês Sir Beauchamp Seymour, em nome da Inglaterra e usando com vagar e método, por ordens do governo liberal do Sr. Gladstone, os seus canhões de oitenta toneladas.</p>
<p>Seria talvez desonesto, decerto seria desproporcionado, o juntar aos nomes dos homens fortes que nestes últimos dois mil anos se têm arremessado sobre Alexandria e a têm deixado em rumas – aos nomes de Caracala, o pagão, de Cirilo, o santo, de Diocleciano, o perseguidor, e de Ben-Amon, o sanguinário – o nome de Sr. William Gladstone, o humanitário, o paladino das nacionalidades tiranizadas, o apóstolo da democracia cristã. </p>
<p>Mas se por um lado, evidentemente, a política do Sr. Gladstone não é um produto de pura ferocidade pessoal, como a de Caracala, que fez arrasar Alexandria porque um poeta dessa cidade fatalmente dado às letras o molestara num epigrama – por outro lado esta brusca agressão de uma frota de doze couraçados, cidadelas de ferro flutuando sobre as águas, contra as decrépitas fortificações de Mehemet Ali, este bombardeamento de uma cidade egípcia estando a Inglaterra em paz com o Egipto, parece-se singularmente com a política primitiva do califa Omar ou dos imperadores persas, que consistia nisto: ser forte; cair sobre o fraco, destruir vida e empolgar fazenda. </p>
<p>Donde se vê que isso a que se chama aqui a «política imperial de Inglaterra» ou «os interesses da Inglaterra no Oriente», pode levar um ministro cristão a repetir os crimes de um pirata muçulmano, e o Sr. Gladstone, que é quase um santo, a comportar-se pouco mais ou menos como Ben-Amon, que era inteiramente um monstro. Antes não ser ministro de Inglaterra! E foi o que pensou o venerável John Brigth, que, para não partilhar a cumplicidade desta brutal destruição de uma cidade inofensiva, deu a sua demissão do Gabinete, separou-se dos seus amigos de cinquenta anos e foi modestamente ocupar o seu velho banco de oposição&#8230;</p>
<p>Tudo o que se prende imediatamente com a aniquilação de Alexandria é de fácil história – sobretudo traçando só as linhas principais, as únicas que podem interessar quem está moral e materialmente a três mil léguas do Egipto e das suas desgraças.</p>
<p>No princípio de Junho passado, o almirante inglês Sir Beauchamp Seymour achava-se nas águas de Alexandria, comandando uma formidável frota; e tendo ancorado ao seu lado uma esquadra francesa com o pavilhão do almirante Conrad, a França e a Inglaterra estavam ali com morrões acesos, vigiando Alexandria, de camaradagem, como tinham estado nos últimos dois anos no Cairo, de pena atrás da orelha, fiscalizando, de camaradagem, as finanças egípcias: porque sabem decerto que, tendo o Egipto (endividado até ao alto das pirâmides para com as burguesias financeiras de Paris e Londres) omitido o pagamento de alguns cupões – a França e a Inglaterra esponsavam maternalmente os interesses dos seus agiotas, e instalavam no Cairo dois cavalheiros, os Srs. Coloin e Blegnières, ambos com funções de secretários da Fazenda no ministério egípcio, ambos encarregados de colher a receita, geri-la e aplicar-lhe a parte mais pingue à amortização e juros da famosa dívida egípcia!</p>
<p>De sorte que as duas bandeiras da Inglaterra e da França, eram na realidade dois enormes papéis de crédito, içados no alto dos couraçados. No almirante Seymour e no almirante Conrad reapareceram os dois burgueses, Coloin e Blegnières. E na baía de Alexandria, perante o Egipto, um dos grandes falidos do Oriente, as frotas unidas das duas altas civilizações do Ocidente representavam simplesmente a usura armada.</p>
<p>Isto era assim na realidade. Oficialmente, porém, os couraçados estavam ali fazendo uma demonstração naval, de facto realizando uma intervenção estrangeira – porque se tinham dado casos no Egipto e o quediva declarara-se coacto. </p>
<p>Todos os que conhecem a história contemporânea de Portugal e de outros curiosos países constitucionais sabem bem o que significa esta deliciosa frase: «El-rei está coacto!» Isto quer dizer que sua majestade se acha em palácio, cercado de uma populaça carrancuda que agarrou em chuços, arranjou uma bandeira no alto de um pau e vem impor esta fórmula prodigiosamente desagradável para el-rei: diminuição de autoridade régia e aumento de liberdade pública&#8230;</p>
<p>Se el-rei conserva por trás do palácio alguns regimentos fiéis, enverga nesse momento a farda de generalíssimo e manda acutilar o seu povo: se desgraçadamente, porém, os soldados estão unidos aos cidadãos, então el-rei declara-se coacto, pede a um rei vizinho, mais forte e menos atarantado, que lhe mande uma divisão, a restabelecer a ordem – isto é, a assegurar a sua majestade a sua soma intacta de autoridade régia, dispersando a tiro a tentativa de liberdade pública. Isto hoje já realmente se não usa na Europa: mas no Oriente, ao que parece, é ainda um método muito decente de acalmar os descontentamentos nacionais.</p>
<p>O quediva, esse excelente e pacato moço, tinha sido vítima de um pronunciamento planeado, à maneira espanhola, mas posto em cena à moda turca. Um coronel. Arabi Bei, que em breve ia ser o famoso Arabi Paxá, apresentou-se com outros oficiais no palácio e depois do salamaleque, que na etiqueta turca consiste em beijar devotadamente a aba da sobrecasaca do quediva, como nos em Lisboa beijamos a túnica de Santo António, lembrou a sua alteza a necessidade de fazer reformas, algumas puramente militares e em proveito dos coronéis, outras políticas, para bem da grande populaça felá, e tão largas que constituíam uma mudança de regime.</p>
<p>Sua alteza escutou, murmurou aquelas frases sobre o amor da nação, a felicidade dos súbditos que o cerimonial indica nas ocasiões de atrapalhação régia, e pareceu tão satisfeito com o interesse que aqueles oficiais tomavam pela prosperidade do vale do Nilo que os recompensou à maneira oriental – convidando-os a um banquete. </p>
<p>Em torno da festiva mesa a cordialidade foi grande, o champanhe espumou contra as prescrições do Alcorão e, entre o sabor das trufas e o aroma dos ramos, o futuro do Egipto apareceu cor-de-rosa. O café foi servido, nos jardins: e quando de um lado entravam os escudeiros com os licores, do outro surgiram beleguins com algemas. Arabi e os seus camaradas, levando ainda na boca o último charuto que lhes oferecera sua alteza, foram conduzidos às palhas do cárcere.</p>
<p>Não há nada mais delicioso – nem mais turco.</p>
<p>A Europa toda, a quem agrada a energia, aplaudiu com estrépito a energia de sua alteza!</p>
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	</item>
		<item>
		<title>A Irlanda e a Liga Agrária</title>
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		<pubDate>Sun, 21 Mar 2010 04:03:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>majorpipe</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Há também outra coisa que se percebe bem: é que a população trabalhadora da Irlanda morre de fome, e que a classe proprietária, os land-lords, indignam-se e reclamam o auxílio da polícia inglesa quando os trabalhadores manifestam esta pretensão absurda e revolucionária – comer! (&#8230;) Como os terrenos são pobres, os invernos abomináveis, o pobre rendeiro [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartasdeinglaterra.wordpress.com&amp;blog=10527508&amp;post=55&amp;subd=cartasdeinglaterra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste"><em><strong><a href="http://cartasdeinglaterra.files.wordpress.com/2010/03/bailout.png"><img class="aligncenter size-full wp-image-56" title="bailout?" src="http://cartasdeinglaterra.files.wordpress.com/2010/03/bailout.png?w=470" alt=""   /><br />
</a>Há também outra coisa que se percebe bem: é que a população trabalhadora da Irlanda morre de fome, e que a classe proprietária, os land-lords, indignam-se e reclamam o auxílio da polícia inglesa quando os trabalhadores manifestam esta pretensão absurda e revolucionária – comer!</strong></em></div>
<div><em><strong><br />
</strong></em></div>
<div><em><strong>(&#8230;) Como os terrenos são pobres, os invernos abomináveis, o pobre rendeiro não pode pagar: dirige-se então ao agiota – ou ao lorde mesmo.  <span style="font-style:normal;font-weight:normal;"><em><strong>E desde esse momento está numa rede de dívidas, letras, colheitas empenhadas, juros acumulados, protestos, o demónio – de que jamais se poderá desenredar.</strong></em></span></strong></em></div>
<div><em><strong><span style="font-style:normal;font-weight:normal;"><em><strong><br />
</strong></em></span></strong></em></div>
<div id="_mcePaste"><em><strong>O resultado é previsto: o lorde (pelo seu agente) penhora-o, apossa-se do grão que está nos celeiros, do gado que está nos currais, do pequeno bragal que está na arca, das arrecadas da mulher, das enxergas – e expulsa-o da casa e da propriedade: da casa que ele talvez construiu, da propriedade que ele com o seu trabalho melhorou!</strong></em></div>
<div><em><strong><br />
</strong></em></div>
<div><span id="more-55"></span></div>
<div>
<div>
É necessário falar da Irlanda, falar da Liga Agrária, falar de Parnell&#8230;</p></div>
<div>Há seis meses que este homem, esta associação, essa ilha inquieta, são o cuidado supremo, a preocupação pungente da Inglaterra e de tudo o que em Inglaterra pensa, desde os homens de Estado até aos caricaturistas. E dentro em breve o sentimento europeu, o sentimento universal, vai-se exaltar pela questão da Irlanda, como outrora pela questão da Polónia.</p></div>
<div>A questão da Polónia! Ó saudosos dias passados, foi esse um dos meus primeiros entusiasmos! Nesse tempo ser polaco era sinónimo de ser herói: e a forma mais usual da paixão, numa alma de vinte anos, não consistia no desejo de se subir ao balcão de Julieta, mas de partir e ir tomar as armas pela Polónia.</p></div>
<div>Em Coimbra, sempre que nos reuníamos mais de quatro amigos, fazíamos logo esse projecto, gritando: «Viva a Polónia!» Os jornais transbordavam de poemas à Polónia e de injúrias ao Urso do Norte! Empenhavam-se batinas e compêndios para socorrer a Polónia, em subscrições patrióticas. Em benefício da Polónia eu representei muito melodrama em que, ora virgem traída e vestida de branco, soluçava com as minhas tranças soltas – ora traidor, soltando gargalhadas cínicas, cravava um ferro no peito de Condé!</p></div>
<div>Por fim não éramos mais insensatos do que o povo de Paris em 1848, marchando em procissão a reclamar do Governo provisório a libertação da Polónia. «Mas é uma guerra com a Rússia, é um conflito europeu!», diziam os prudentes. E os entusiastas respondiam: «Não tem dúvida; a França é o messias, é a salvadora dos oprimidos: a França é o Cristo das nações; sendo necessário, deve morrer por elas.» Mas desde 1848 muita água tem passado sob as pontes, como dizem em Paris: e mesmo muito sangue.</p></div>
<div>Por estes tempos de oportunismo e de naturalismo, a pobre Irlanda não inspirará jamais o culto piedoso que demos outrora à Polónia.</p></div>
<div>De resto, a Polónia e a Irlanda constituem dois casos diferentes. E certo, porém, que vistos de longe, através da névoa lacrimosa da sentimentalidade, oferecem similitudes. A Irlanda pode talvez considerar-se uma Polónia constitucional: há aqui, como na Polónia, uma raça oprimida, cujo solo foi dividido entre os grandes vassalos, as famílias históricas da nação conquistadora, e que desde então tem permanecido em servidão agrária.</p></div>
<div>Somente na Irlanda o arbitrário e os abusos que esta situação origina são recobertos pelo regime parlamentar de um belo verniz de legalidade: e a Irlanda sofre as misérias de um país vencido e explorado – mas dentro das formas constitucionais.</p></div>
<div>O Irlandês parece-se com o Polaco em certos pontos: são ambos arrebatados, imprudentes, espirituosos, generosos e poetas. Como o Polaco, o Irlandês católico odeia o conquistador, sobretudo por ele ser herético de nacionalidade, misturando-lhe o conflito de religião. Como na Polónia há na Irlanda a lenda patriótica da independência das revoltas sufocadas, dos agitadores heróicos, lenda que fala à imaginação popular tanto como a mesma religião, inspirando iguais fanatismos, de tal sorte que o Irlandês é tão devoto dos seus santos como dos seus patriotas: como o Polaco despreza o Russo, assim o Irlandês olha o Anglo-Saxónio como um bárbaro e um estúpido e tem por ele toda a antipatia desdenhosa que uma raça de improvisadores pode ter por uma raça de críticos e de analistas. Na ordem social, como na ordem doméstica, há entre a Polónia e a Irlanda outras curiosas afinidades. A última táctica da Irlanda, mesmo, é imitada da Polónia: a Irlanda vai apelar para a Europa e é Victor Hugo quem falará em nome dela, num manifesto com o título de Opressor e Oprimido.</p></div>
<div>Mas a Inglaterra realmente não se parece com a Rússia: nem mesmo através da névoa da sensibilidade, através da paixão pela causa da Irlanda, o mais esclarecido dos liberalismos pode ser confundido com o mais boçal dos despotismos.</p></div>
<div>E todavia&#8230;</p></div>
<div>E todavia, para não perturbar os interesses tirânicos de um milhar de ricos proprietários, deixa na miséria quatro milhões de homens.</p></div>
<div>Tem todo o território irlandês ocupado militarmente. Apenas um patriota começa a ter influência na Irlanda, prende o patriota. Quando a eloquência dos deputados irlandeses se torna inquietadora, abafa-a, quebrando sem escrúpulos uma tradição parlamentar de séculos. Vai governar a Irlanda pela lei marcial, como qualquer czar. E, para surpreender os planos da Liga Agrária, viola os segredos das cartas.</p></div>
<div>Esta questão da Irlanda apresenta-se tão complexa, tão confusa como o próprio caos antes da grande façanha de Jeová. Na Irlanda começa por haver três nações distintas com interesses contraditórios: os irlandeses católicos, os irlandeses protestantes ou orangistas, os ingleses e proprietários escoceses. A questão da propriedade é sem dúvida a essencial: mas existem outras, a questão religiosa, a questão policial, a questão judicial, a questão municipal, etc., etc.</div>
<div>E sobre cada uma destas questões é difícil achar dois irlandeses de acordo. Cada aldeia se torna assim um campo de batalha: e, como são eloquentes e sarcásticos, o grande fluxo labial, a paixão do epigrama amplificam e azedam as dissensões.</p></div>
<div>Mesmo dentro da Igreja Católica, que deveria conservar a tradição da unidade, tumultua a discórdia: o clero paroquial está em luta com os dignitários episcopais: e é raro que o clero de um condado não divirja de sentimentos e de prédica com o clero do condado vizinho. No mundo dos patriotas revolucionários não existe uma harmonia melhor: a Liga Agrária não aceita os Fenians e os Fenians abominam as tendências parlamentares dos Home-Rulers: e dentro mesmo do partido dos Home-Rulers há democratas e conservadores. E um numeroso conflito por toda a pobre Irlanda.<br />
        </div>
<div>
        Os Irlandeses dizem, porém, que se lhes fosse dada a autonomia, horas depois de declarada a república irlandesa todas estas questões se resolveriam de per si e o país seria como um mar que amansa e fica em equilíbrio.Até agora, porém, essa falta de unidade é aduzida justamente como evidência dos perigos que teria essa autonomia.
    </div>
<div>Os Ingleses pensam sinceramente que no momento em que a Irlanda saísse de sob a tutela do bom senso e do saber inglês, no instante que essa raça impressionável, excitada, fanática e pouco culta fosse abandonada a si mesma, começaria uma guerra civil, uma guerra religiosa, diferentes guerras agrárias, que bem depressa fariam da Verde Em um montão de ruínas numa poça de sangue.</div>
<div>Se os Irlandeses se não entendem bem sobre os males da Irlanda, os Ingleses compreendem-se menos acerca dos remédios para a Irlanda. E a confusão em que se está provém principalmente da abundância da discussão. Não há vilota ou mesmo aldeia de Inglaterra que não tenha um jornal do tamanho da Gazeta de Notícias, com oito páginas de tipo cerrado. E de alto a baixo esta vastidão de papel, desde que começou a agitação da Liga Agrária, é ocupada por estudos e artigos sobre a Irlanda.</p></div>
<div>Multiplique-se isto pelas três ou quatro mil gazetas que a pobre Inglaterra nutre sobre a sua epiderme: juntem-se-lhe os artigos dos semanários, dos quinzenários, das revistas e dos magazines, os panfletos, as brochuras, os ensaios inumeráveis como as estrelas do céu, os livros e tratados de toda a sorte, os discursos do Parlamento, as arengas dos meetings, as conferências, os sermões, as controvérsias públicas, as lições, enfim, toda essa colossal literatura que nestes últimos meses tem tomado por assunto a Irlanda.</p></div>
<div>E digam-me se, com todo este mundo de informação, de discussão, de teorias, de projectos, de sistemas, de opiniões, de imaginações – não é natural que o cérebro da Inglaterra esteja, nesta questão da Irlanda, perfeitamente desorganizado.</div>
<div>O meu está.</p>
<p>
    </div>
<div>Mas neste caos mental tenho ilustres companheiros: o grande Carlyle costumava dizer que a sinceridade e a elevação de alguns patriotas irlandeses era a única coisa nítida e clara que ele conseguia distinguir no escuro tumulto da confusão irlandesa&#8230;</p></div>
<div>Há também outra coisa que se percebe bem: é que a população trabalhadora da Irlanda morre de fome, e que a classe proprietária, os land-lords, indignam-se e reclamam o auxílio da polícia inglesa quando os trabalhadores manifestam esta pretensão absurda e revolucionária – comer!</div>
<div>Aqui está, por exemplo, sua graça o duque de Leicester, para não citar outros de nomes menos sonoros: os seus rendimentos na Irlanda sobem a quatrocentos contos de réis – e o infeliz tem ainda uns duzentos contos mais das suas propriedades na Inglaterra! Este fidalgo, escuso talvez dizê-lo, não sofre frio e não passa fome: por outro lado, a população de rendeiros que trabalham as suas terras e que com o seu suor e o seu esforço lhe arrancam do solo este rendimento – a única coisa que realmente têm é fome e frio.</p></div>
<div>Mas este ano tiveram mais fome e mais frio que de costume: e lá foram em farrapos, e com os pés nus sobre a neve, suplicar a sua graça o duque de Leicester que lhes fizesse neste ano uma diminuição de dez por cento nas rendas – exageradas, absurdas e devoradoras. Sua graça respondeu (pela boca dos seus administradores, naturalmente: por sua própria boca um duque inglês nunca fala senão com outro duque), respondeu que as suas circunstâncias não lhe permitiam essa liberalidade – e que a repetição de uma tal súplica não podia ser tolerada.</div>
<div>E portanto os rendeiros de sua graça lá voltaram, de cabeça baixa, para o frio e para a fome.</p></div>
<div>Direi de passagem que se o pedido, em lugar de ser feito pelos seus rendeiros da Irlanda partisse dos seus rendeiros da Inglaterra, sua graça apressar-se-ia a satisfazê-lo rasgadamente.</div>
<div>E porque a Irlanda é um país conquistado, e quando o proletário se queixa a polícia fila-o pela gola: mas, em Inglaterra, quando o operário inglês ergue a sua voz de leão a polícia fica imóvel, os duques empalidecem e o edifício monárquico e feudal treme nas suas bases.</p></div>
<div>Mas a propósito de sua graça o duque de Leicester (gozemos o mais tempo possível esta ilustre companhia: <em>quand on prend du duc on n’en saurait trop prendre</em>), deixem-me dizer-lhes em resumo quais são as relações agrárias entre um proprietário, um land-lord, e os seus rendeiros.</p></div>
<div>O solo, é claro, pertence ao lorde. Por que título não sei, talvez uma de suas avós, numa noite que estava mais decotada, atraísse o inconstante olhar do amável Carlos II, nos saraus galantes da Restauração: desse olhar provém, acaso, esta bela propriedade. O alegre Stuart era tão generoso! Tinha-se vivido tão pobremente, tão tristemente, sob a ditadura puritana do Cromwell!&#8230;</div>
<div>Depois, se Carlos II tinha pouco dinheiro (o desgraçado recebia uma mesada do rei de França!) não lhe faltavam terras na Irlanda.</div>
<div>Três léguas de pastos, ou de terreno arável, por um beijo e os seus acessórios não é caro para um Stuart. E para uma fraca dama ou para seu esposo é um famoso negócio.</div>
<div>Note-se, por Deus, note-se que eu estou fazendo estas suposições sobre um tipo de lorde abstracto. Nem toda a minha simpatia pelos trabalhadores irlandeses me levaria a suspeitar das puríssimas senhoras da Casa de Leicester&#8230;</p></div>
<div>Como proprietário do solo, pois, o lorde arrenda-o às famílias que de geração em geração vivem nas suas terras: o Irlandês prende-se ao solo como uma árvore pelas raízes, e muitas vezes prefere morrer a abandonar um torrão árido que o não nutre. A emigração irlandesa para a América sai principalmente da população operária das cidades.</p></div>
<div>Ora, nos contratos de renda, o homem de trabalho está absolutamente à mercê do senhor da propriedade. O valor das rendas é puramente arbitrário. Não há tipo de renda baseado sobre a avaliação das terras; existe o que se chama a avaliação de Griffith, feita há mais de trinta anos por o agrónomo desse nome; mas esta avaliação, equitativa e favorável ao trabalhador, não é jamais aceitada pelos proprietários.</p></div>
<div>Nisto está a origem de todas as misérias da Irlanda; as rendas, absurdamente elevadas, absorvem todo o produto da terra, e o rendeiro escassamente pode viver, muito menos economizar.</p></div>
<div>Além do solo, o proprietário deve fornecer a habitação e os instrumentos de trabalho: se na fazenda não existe casa, ou se ela necessita reparações, o land-lord dará naturalmente alguma madeira, uma mão-cheia de pregos, um molho de colmo, para que o trabalhador erga a cabana miserável, muito inferior, como conforto, aos currais dos nossos gados; e a esta generosidade régia o land-lord juntará talvez um velho arado e um ferro de enxada. Mas estes dons são adiantamentos que ele sobrecarrega com preços duplos ou triplos do seu valor, e de que se faz embolsar por prestações trimestrais.</p></div>
<div>Não é possível ser mais grandioso ou mais nobre.</p></div>
<div>Aqui está, pois, o rendeiro de posse de um tecto, de um terreno e de ferramenta. Parece que só lhe resta começar a cultivar.</div>
<div>Assim seria, se não fosse na Irlanda. Mas a Natureza, mãe fecunda e amante, comporta-se aqui ainda pior que os lordes: se a Natureza tivesse assento na Câmara dos Pares de Inglaterra não seria mais áspera, mais hostil ao pobre e mais avara de si mesma. A Natureza, quando não se apresenta ao trabalhador irlandês sob o aspecto de solo pedregoso, mostra-se sob o aspecto de pântano.</p></div>
<div>Oferece-lhe de um lado um penedo, do outro um charco.</div>
<div>E diz-lhe com a sua ternura de mãe:</div>
<div><em>– Escolhe. De qual preferes tirar tu os meios de subsistência?</p>
<p></em></div>
<div><em><br />
</em></div>
<div>O pobre irlandês o que preferiria era ir-se embora: mas como por toda a parte encontraria um proprietário igual, os mesmos pedregulhos e idênticos lamaçais – fica.</div>
<div>E é então que se apresenta de novo a generosidade do lorde. Sua graça está pronta (porque sua graça é compassiva) a escoar o pântano, a desempedrar o solo, a fazer melhoramentos na terra. Sua graça vai mesmo mais longe: sua graça (Deus o recompense!) oferece a semente. E mais ainda: sua graça (que as bênçãos do céu o vistam!) dá os adubos.E aqui está um rendeiro feliz, que tem a casa, os instrumentos, a semente, os adubos&#8230;</p></div>
<div>Somente sua graça marca os preços que lhe convêm aos melhoramentos feitos, à semente e aos adubos: e no fim do ano a renda que era originariamente de dez está em vinte e cinco!</p></div>
<div>Como os terrenos são pobres, os invernos abomináveis, o pobre rendeiro não pode pagar: dirige-se então ao agiota – ou ao lorde mesmo.</div>
<div>E desde esse momento está numa rede de dívidas, letras, colheitas empenhadas, juros acumulados, protestos, o demónio – de que jamais se poderá desenredar.</div>
<div>O resultado é previsto: o lorde (pelo seu agente) penhora-o, apossa-se do grão que está nos celeiros, do gado que está nos currais, do pequeno bragal que está na arca, das arrecadas da mulher, das enxergas – e expulsa-o da casa e da propriedade: da casa que ele talvez construiu, da propriedade que ele com o seu trabalho melhorou!</p></div>
<div>Tal qual como na Meia Idade.</div>
<div>Estas expulsões, que se chamam evictions, são o terror irlandês. Que há-de fazer um miserável com mulher, crianças, às vezes uma avó entrevada – que se vê de uma hora para a outra no meio de uma estrada, por um terrível Inverno, sem um farrapo para se cobrir, sem uma côdea de pão, sem casa, sem destino e sem esperança? E note-se que isto passa-se em regiões como as da Irlanda, pouco habitadas, com um casal de légua em légua. Esta falta de vizinhos torna estas expulsões mais terríveis. Quantas milhas a caminhar sob a chuva ou sob a neve, com as crianças chorando de fome, os doentes levados numa padiola, até que se encontre algum rendeiro mais feliz que ainda tem um canto de cabana onde asile a família errante! Mas por pouco tempo – porque todos são pobres, todos estão endividados, todos ameaçados da expulsão&#8230;</p>
<p>
    </div>
<div>E durante esse tempo sua graça banqueteia-se, bebe Chateaux Margaux de seis mil réis a garrafa, caça, etc. – e aluga a fazenda, donde expulsou o miserável número um, ao rendeiro número dois. Somente o número dois, como a encontra melhorada pelo antecedente, paga-a mais cara: e depois de explorado, sugado, espremido, durante dois ou três anos, é expulso – para dar lugar ao numero três. Este infeliz passa pelo mesmo processo de trituração,<em> et sic per omnia&#8230;</p>
<p></em></div>
<div><em><span style="font-style:normal;"><br />
</span></em></div>
<div>E as expulsões são inevitáveis, porque com a altura absurda das rendas – é impossível que o rendeiro as possa pagar e viver. Isto, como compreendem, é apenas um vago contorno da realidade, apontada nas suas feições essenciais. Descendo-se a detalhes – vê-se então uma horrorosa treva de injustiça e miséria.</p></div>
<div>Mas como podem tais coisas passar-se no século XIX e ao lado do povo inglês?</div>
<div>Como permite uma nação tão justa a existência de tanto opróbrio? – dir-me-ão.</p></div>
<div>Justamente essa pergunta a fazia Victor Hugo há dias a Parnell, o chefe da Liga Agrária, na sua célebre entrevista. E eu responderei com as palavras de Parnell.</div>
<div>Tais coisas passam-se no século XIX. E o povo inglês não as sabia: pelo menos eram-lhe contadas de tal modo que em lugar de piedade só sentia cólera.</div>
<div>E isto é exacto. Os males da Irlanda eram conhecidos pela voz dos seus agitadores. Mas estes homens, desde O’Connell, cometeram sempre o erro de misturar as queixas de um proletariado oprimido às aspirações de independência nacional: de sorte que a Inglaterra não atendia à reclamação dos trabalhadores pela irritação que lhe causavam as exigências dos patriotas.</p></div>
<div>O povo inglês não pode ouvir falar em que a Irlanda se separe e se constitua em república: mas está pronto a ordenar que se lhe dê um justo regime de propriedade.</div>
<div>O erro dos Fenians foi confundir a questão nacional com a questão agrária: o rendeiro miserável aparecia então aos ingleses com o aspecto de um rebelde à União; e envolvendo-os ambos no mesmo ódio, porque lhes supunha idênticas ambições, sufocou sem discernimento a voz que só pedia pão e a voz que reclamava autonomia.</div>
<div>E todavia o povo inglês sentiu sempre instintivamente que a Irlanda sofria. Muitas vezes pediu para ela uma reforma das leis agrárias. Era, porém, uma pedir vago, sem coesão; mais a expressão de sensibilidades feridas do que a intimação da vontade nacional.</p></div>
<div>De sorte que os parlamentos, saídos da classe que tem interesse em manter a Irlanda na miséria, contentavam-se em fazer reformas de detalhes, reformas insignificantes e imperceptíveis, para dar uma satisfação à compaixão inglesa: e o regime antigo ficava inatacado como dantes. Mas isto bastava para que alguns humanitários dissessem com um suspiro de alívio: «Enfim lá se fez alguma coisa pela Irlanda!»</p></div>
<div>De facto não se tinha feito nada.</p></div>
<div>Era, pois, necessário que a questão da propriedade fosse separada da questão da independência: que se fizesse um movimento legal dentro da constituição, com o fim exclusivo de terminar os abusos dos land-lords, calando toda a ideia de arrancar a Irlanda ao Reino Unido. Então haveria a certeza de que o povo inglês, vendo a questão agrária e os seus horrores, isoladamente, no seu relevo próprio, desembaraçada das reclamações rebeldes e das agitações separatistas – determinasse dar a tantos males, tão antigos, um remédio radical.</p></div>
<div>Foi isto que tentou a Liga Agrária&#8230;</p></div>
<div>Esta carta é longa: e apresentando esta formidável entidade, a Liga Agrária, eu devo fazer como o ilustre Ponson du Terrail, quando introduziu um novo personagem, o herói providencial, num fim de folhetim: deixar a história das suas façanhas, das suas virtudes e da sua beleza, com o interesse suspenso, até ao folhetim seguinte. Não se esqueçam que ficamos no momento em que neste palco da história irlandesa subitamente aparece ao fundo, misteriosa e grave, a Liga Agrária.</div>
</div>
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		<title>Israelismo</title>
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		<pubDate>Sun, 10 Jan 2010 03:09:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>majorpipe</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Na Meia Idade, todas as vezes que o excesso dos males públicos, a peste ou a fome desesperava as populações; todas as vezes que o homem escravizado, esmagado e explorado mostrava sinais de revolta, a Igreja e o príncipe apressavam-se a dizer-lhe: «Bem vemos, tu sofres! Mas a culpa é tua. E que o judeu [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartasdeinglaterra.wordpress.com&amp;blog=10527508&amp;post=48&amp;subd=cartasdeinglaterra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://cartasdeinglaterra.files.wordpress.com/2010/01/palestine-aug-nov-2007-047.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-50" title="muros" src="http://cartasdeinglaterra.files.wordpress.com/2010/01/palestine-aug-nov-2007-047.jpg?w=470&#038;h=313" alt="" width="470" height="313" /></a></p>
<p><strong><em>Na Meia Idade, todas as vezes que o excesso dos males públicos, a peste ou a fome desesperava as populações; todas as vezes que o homem escravizado, esmagado e explorado mostrava sinais de revolta, a Igreja e o príncipe apressavam-se a dizer-lhe:<br />
«Bem vemos, tu sofres! Mas a culpa é tua. E que o judeu matou Nosso Senhor e tu ainda não castigaste suficientemente o judeu.» A populaça então atirava-se aos judeus: degolava, assava, esquartejava, fazia-se uma grande orgia de suplícios; depois, saciada, a turba reentrava na treva da sua miséria a esperar a recompensa do Senhor.<br />
Isto nunca falhava.<br />
Sempre que a Igreja, que a feudalidade, se sentia ameaçada por uma plebe desesperada de canga dolorosa – desviava o golpe de si e dirigia-o contra o judeu.<br />
Quando a besta popular mostrava sede de sangue – servia-se à canalha sangue israelita.<br />
É justamente o que faz, em proporções civilizadas, o senhor de Bismarck. </em></strong></p>
<p><span id="more-48"></span>As duas grandes «sensações» do mês são incontestavelmente a publicação do novo romance de Lord Beaconsfield, Endymion, e a agitação na Alemanha contra os judeus. Literariamente, pois, e socialmente o mês pertence aos israelitas. Este extraordinário movimento antijudaico, esta inacreditável ressurreição das cóleras piedosas do século XVI é vigiada com tanto mais interesse em Inglaterra quanto aqui, como na Alemanha, os judeus abundam, influindo na opinião pelos jornais que possuem (entre outros o Daily Telegraph, um dos mais importantes do reino), dominando o comércio pelas suas casas bancárias e, em certos momentos mesmo, governando o Estado pelo grande homem da sua raça, o seu profeta maior, o próprio Lord Beaconsfield.</p>
<p>Aqui, decerto, estamos longe de ver desencadear um ódio nacional, uma perseguição social contra os judeus; mas há suficientes sintomas de que o desenvolvimento firme deste estado israelita dentro do estado cristão começa a impacientar o Inglês. Não vejo, por exemplo, que o que se está passando na Alemanha, apesar de exalar um odioso cheiro de auto-de-fé, provoque uma grande indignação da imprensa liberal de Londres: e já mesmo um jornal da autoridade do Spectator se vê forçado a atenuar, perante os graves protestos da colónia israelita, artigos em que descrevera os judeus como uma corporação isolada e egoísta, à semelhança das comunidades católicas, trabalhando só no mesmo interesse, encerrando-se na força da sua tradição e conservando simpatias e tendências manifestamente hostis às do Estado que os tolera. Tudo isto é já desagradável.<br />
Mas que diremos do movimento na Alemanha? Que em 1880, na sábia e tolerante Alemanha, depois de Hegel, de Kant e de Schopenhauer, com os professores Strauss e Hartmann, vivos e trabalhando, se recomece uma campanha contra o judeu, o matador de Jesus, como se o imperador Maximiliano estivesse ainda, do seu acampamento de Pádua, decretando a destruição da lei rabínica e ainda pregasse em Colónia o furioso Grão de Pimenta, geral dos dominicanos –, é facto para ficar de boca aberta todo um longo dia de Verão. Porque enfim, sob formas civilizadas e constitucionais (petições, meetings, artigos de revista, panfletos, interpelações), é realmente a uma perseguição de judeus que vamos assistir, das boas, das antigas, das manuelinas, quando se deitavam à mesma fogueira os livros do rabino e o próprio rabino, exterminando assim economicamente, com o mesmo feixe de lenha, a doutrina e o doutor.<br />
E é curioso e edificante espectáculo ver o venerável professor Virchow, erguendo-se no parlamento alemão, a defender os judeus, a sabedoria dos livros hebraicos, as sinagogas, asilo do pensamento durante os tempos bárbaros – exactamente como o ilustre legista Roenchlin os defendia nas perseguições que fecharam o século XV!</p>
<p>Mas o mais extraordinário ainda é a atitude do Governo alemão: interpelado, forçado a dar a opinião oficial, a opinião de Estado sobre este rancor obsoleto e repentino da Alemanha contra o judeu, o Governo declara apenas com lábio escasso e seco «que não tenciona alterar a legislação relativamente aos israelitas». Não faltaria, com efeito, mais que ver os ministros do império, filósofos e professores, decretando, a D. Manuel, a expulsão dos judeus, ou restringindo-lhes a liberdade civil até os isolar em vielas escuras, fechadas por correntes de ferro, como nas judiarias do gueto.</p>
<p>Mas uma tal declaração não é menos ameaçadora. O Estado dá a entender apenas que a perseguição não há-de partir da sua iniciativa: não tem porém uma palavra para condenar este estranho movimento anti-semítico, que em muitos pontos é presentemente organizado pelas suas próprias autoridades. Deixa a colónia judaica em presença da irritação da grossa população germânica — e lava simplesmente as suas mãos ministeriais na bacia de Pôncio Pilatos.</p>
<p>Não afirma sequer que há-de fazer respeitar as leis que protegem o judeu, cidadão do império; tem apenas a vaga tenção, vaga como a nuvem da manhã, de as não alterar por ora!<br />
O resultado disto é que numa nação em que a sociedade conservadora forma como um largo batalhão, pensando o que lhe manda a «ordem do dia» e marchando em disciplina, à voz do coronel – cada bom alemão, cada patriota, vai imediatamente concluir desta linguagem ambígua do Governo que, se a corte, o estado-maior, os feld-marechais, o senhor de Bismarck, todo esse mundo venerado e obedecido não vêem o ódio ao judeu com entusiasmo, não deixam de o aprovar em seus corações cristãos&#8230;</p>
<p>E o novo movimento vai certamente receber, daqui, um impulso inesperado. Que digo eu? Já recebeu. Apenas se soube a resposta do Ministério, um bando de mancebos, em Leipzig, que se poderiam tomar por frades dominicanos mas que eram apenas filósofos estudantes, andaram expulsando os judeus das cervejarias, arrancando-lhes assim o direito individual mais caro e mais sagrado ao alemão, o direito à cerveja!</p>
<p>Mas donde provém este ódio ao judeu? A Alemanha não quer, decerto, começar de novo a vingar o sangue precioso de Jesus. Há já tanto tempo que essas coisas dolorosas se passaram!&#8230; A humanidade cristã está velha e, portanto, indulgente: em dezoito séculos esquece a afronta mais funda. E infelizmente hoje já ninguém, ao ler os episódios da Paixão, arranca furiosamente da espada, como Clóvis, gritando, com a face em pranto:</p>
<p><em>– Ah, infames! Não estar eu lá com os meus Francos!</em></p>
<p>Além disso, este movimento é organizado pela burguesia, e as classes conservadoras da Alemanha são muito jurídicas para não aprovarem, no segredo do seu pensamento, o suplício de Jesus. Dada uma sociedade antiga e próspera, com a sua religião oficial, a sua moral oficial, a sua literatura oficial, o seu sacerdócio, o seu regime de propriedade, a sua aristocracia e o seu comercio que se há-de fazer a um inspirado, a um revolucionário, que aparece seguido de uma plebe tumultuosa, pregando a destruição dessas instituições consagradas à fundação de uma nova ordem social sobre a ruína delas e, segundo a expressão legal, «excitando o ódio dos cidadãos contra o Governo»? Evidentemente puni-lo.</p>
<p>Pede-o a lei, a ordem, a razão de Estado, a salvação pública e os interesses conservadores. É justamente o que a Alemanha, com muita razão, faz aos seus socialistas, a Karl Marx e a Bebei. Ora, estes maus homens não querem fazer na Alemanha contemporânea uma revolução, decerto, mais radical que a que Jesus empreendeu no mundo semítico. É verdade que o Nazareno era um Deus: para nós, certamente, humanidade privilegiada, que o soubemos amar e compreender mas em Jerusalém, para o doutor do Templo, para a escriba da lei, para o mercador do bairro de David, para o proprietário das searas que ondulavam até Belém, para o centurião severo encarregado da ordem Jesus era apenas um insurrecto.</p>
<p>E se Bismarck estivesse de toga, no Pretório, sobre a cadeira curul de Caifás, teria assinado a sentença fatal tão serenamente como o dito Caifás, certo que nesse momento salvava a sua pátria da anarquia. Os conservadores de Jerusalém foram lógicos e legais, como são hoje os de Berlim, de Sampetersburgo ou de Viena: no mundo antigo, como agora, havia os mesmos interesses santos a guardar. Que diabo!, é indispensável que a sociedade se conserve nas suas largas bases tradicionais: e outrora, como hoje, a salvação da ordem e a justificação dos suplícios.</p>
<p>É possível que este gozo que nós hoje, conservadores, temos de triturar os messias socialistas, encarcerar os Proudhon, mandar para a Sibéria os Bakunine e crivar de multas os Félix Pyat venha a custar caro a nosso netos. Com o andar dos tempos, todo o grande reformador social se transforma pouco a pouco em Deus: Zoroastro, Confúcio, Maomet, Jesus, são exemplos recentes! As formas superiores do pensamento tem uma tendência fatal a tornar-se na futura lei revelada: e toda a filosofia termina, nos seus velhos dias, por ser religião.<br />
Augusto Comte já tem altares em Londres; já se lhe reza. E assim como hoje exigimos capelas aos santos padres, aos que foram os autores divinos, os nobres criadores do catolicismo, talvez um dia, quando o socialismo for religião do Estado, se vejam em nichos de templo, com uma lamparina de frente, as imagens dos santos padres da revolução: Proudhon de óculos. Bakunine parecendo um urso sob as suas peles russas, Karl Marx apoiado ao cajado simbólico do pastor de almas tristes.</p>
<p>Como a civilização caminha para o oeste, isto passar-se-á aí para o século XXVIII, na Nova Zelândia ou na Nova Austrália, quando nós, por nosso turno, formos as velhas raças do Oriente, as nossas línguas idiomas mortos, e Paris e Londres montões de colunas truncadas como hoje Palmira e Babilónia, que o zelandês e o australiano virão visitar, em balão, com bilhete de ida e volta&#8230; Logicamente, então, como são detestados hoje na Alemanha os herdeiros dos que mataram Jesus – só haverá repulsão e ódio pelos descendentes de nós outros que estamos encarcerando Bakunine, ou multando Pyat. E como toda a religião tem um período de furor e extermínio, esses pobres netos nossos serão perseguidos, passarão ao estado de raça maldita e morrerão nos suplícios&#8230; <em>C’est raide!</em></p>
<p>Mas voltemos à Alemanha<br />
Ainda que o Pedro Eremita desta nova cruzada constitucional seja um sacerdote, o reverendo Streker, capelão e pregador da corte, é evidente que ela não tira a sua força da paixão religiosa. As cinco chagas de Jesus nada têm que ver com estas petições que por toda a parte se assinam, pedindo ao Governo que não permita aos judeus adquirirem propriedades, que não sejam admitidos aos cargos públicos, e outras extravagâncias góticas!</p>
<p>O motivo do furor anti-semítico é simplesmente a crescente prosperidade da colónia judaica, colónia relativamente pequena, apenas composta de quatrocentos mil judeus; mas que pela sua actividade, a sua pertinácia, a sua disciplina, está fazendo uma concorrência triunfante à burguesia alemã.<br />
A alta finança e o pequeno comércio estão-lhe igualmente nas mãos: é o judeu que empresta aos estados e aos príncipes, é a ele que o pequeno proprietário hipoteca as terras. Nas profissões liberais absorve tudo: é ele o advogado com mais causas e o médico com mais clientela: se na mesma rua há dois tendeiros, um alemão e outro judeu, o filho da Germânia ao fim do ano está falido, o filho de Israel tem carruagem! Isto tornou-se mais frisante depois da guerra: e o bom alemão não pode tolerar este espectáculo do judeu engordando, enriquecendo, reluzindo, enquanto ele, carregado de louros, tem de emigrar para a América à busca de pão.</p>
<p>Mas se a riqueza do judeu o irrita, a ostentação que o judeu faz da sua riqueza enlouquece-o de furor. E, neste ponto, devo dizer que o Alemão tem razão. A antiga legenda do israelita, magro, esguio, adunco, caminhando cosido com a parede, e coando por entre as pálpebras um olhar turvo e desconfiado – pertence ao passado. O judeu hoje é um gordo. Traz a cabeça alta, tem a pança ostentosa e enche a rua. E necessário vê-los em Londres, em Berlim, ou em Viena: nas menores coisas, entrando em um café ou ocupando uma cadeira de teatro, têm um ar arrogante e ricaço, que escandaliza.</p>
<p>A sua pompa espectaculosa de Salomões parvenus ofende o nosso gosto contemporâneo, que é sóbrio. Falam sempre alto, como em país vencido, e em um restaurante de Londres ou de Berlim nada há mais intolerável que a gralhada semítica. Cobrem-se de jóias, todos os arreios das carruagens são de ouro, e amam o luxo grosso. Tudo isto irrita. Mas o pior ainda na Alemanha é o hábil plano com que fortificam a sua prosperidade e garantem o luxo, tão hábil que tem um sabor de conspiração: na Alemanha, o judeu, lentamente, surdamente, tem-se apoderado das duas grandes forças sociais – a Bolsa e imprensa. Quase todas as grandes casas bancárias da Alemanha, quase todos os grandes jornais, estão na posse do semita. Assim, torna-se inatacável. De modo que não só expulsa o alemão das profissões liberais, o humilha com a sua opulência rutilante e o traz dependente pelo capital; mas, injúria suprema, pela voz dos seus jornais, ordena-lhe o que há-de fazer, o que há-de pensar, como se há-de governar e com que se há-de bater!</p>
<p>Tudo isto ainda seria suportável se o judeu se fundisse com a raça indígena. Mas não. O mundo judeu conserva-se isolado, compacto, inacessível e impenetrável. As muralhas formidáveis do Templo de Salomão, que foram arrasadas, continuam a pôr em torno dele um obstáculo de cidadelas.</p>
<p>Dentro de Berlim há uma verdadeira Jerusalém inexpugnável: aí se refugiam com o seu Deus, o seu livro, os seus costumes, o seu Sabbath, a sua língua, o seu orgulho, a sua secura, gozando o ouro e desprezando o cristão. Invadem a sociedade alemã, querem lá brilhar e dominar, mas não permitem que o alemão meta sequer o bico do sapato dentro da sociedade judaica. Só casam entre si; entre si, ajudam-se regiamente, dando-se uns aos outros milhões – mas não favoreceriam com um troco um alemão esfomeado; e põem um orgulho, um coquetismo insolente em se diferençar do resto da nação em tudo, desde a maneira de pensar até à maneira de vestir.<br />
Naturalmente, um exclusivismo tão acentuado é interpretado como hostilidade – e pago com ódio.</p>
<p>Tudo isto, no entanto, é a luta pela existência. O judeu é o mais forte, o judeu triunfa. O dever do alemão seria exercer o músculo, aguçar o intelecto, esforçar-se, puxar-se para a frente para ser, por seu turno, o mais forte. Não o faz: em lugar disso, volta-se miseravelmente, covardemente, para o Governo e peticiona, em grandes rolos de papel, que seja expulso o judeu dos direitos civis, porque o judeu é rico, e porque o judeu é forte.</p>
<p>O Governo, esse, esfrega as mãos, radiante. Os jornais ingleses não compreendem a atitude do senhor de Bismarck aprovando tacitamente o movimento antijudaico. É fácil de perceber; é um rasgo de génio do chanceler. Ou, pelo menos, uma prova de que lê com proveito a história da Alemanha.</p>
<p>Na Meia Idade, todas as vezes que o excesso dos males públicos, a peste ou a fome desesperava as populações; todas as vezes que o homem escravizado, esmagado e explorado mostrava sinais de revolta, a Igreja e o príncipe apressavam-se a dizer-lhe:<br />
«Bem vemos, tu sofres! Mas a culpa é tua. E que o judeu matou Nosso Senhor e tu ainda não castigaste suficientemente o judeu.» A populaça então atirava-se aos judeus: degolava, assava, esquartejava, fazia-se uma grande orgia de suplícios; depois, saciada, a turba reentrava na treva da sua miséria a esperar a recompensa do Senhor.<br />
Isto nunca falhava.<br />
Sempre que a Igreja, que a feudalidade, se sentia ameaçada por uma plebe desesperada de canga dolorosa – desviava o golpe de si e dirigia-o contra o judeu.<br />
Quando a besta popular mostrava sede de sangue – servia-se à canalha sangue israelita.<br />
É justamente o que faz, em proporções civilizadas, o senhor de Bismarck.</p>
<p>A Alemanha sofre e murmura: a prolongada crise comercial, as más colheitas, o excesso de impostos, o pesado serviço militar, a decadência industrial, tudo isto traz a classe média irritada. O povo, que sofre mais, tem ao menos a esperança socialista; mas os conservadores começam a ver que os seus males vêm dos seus ídolos.<br />
Para o acalmar e ocupar, o que mais serviria ao chanceler seria uma guerra, mas nem sempre se pode inventar uma guerra, e começa a ser grave encontrar em campo a França separada, mais forte que nunca, com os seus dois milhões de bons soldados, a sua fabulosa riqueza, riqueza inconcebível, que, como dizia há dias a Saturday Review, é um fenómeno inquietador e difícil de explicar.</p>
<p>Portanto, à falta de uma guerra, o príncipe de Bismarck distrai a atenção do alemão esfomeado – apontando-lhe para o judeu enriquecido. Não alude naturalmente à morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas fala nos milhões do judeu e no poder da sinagoga. E assim se explica a estranha e desastrosa declaração do Governo.</p>
<p>Da outra «sensação», o romance de Lord Beaconsfield, Endymion, não me resta, nesta carta, espaço para rir. Figuram nele, sob nomes transparentes, Beaconsfield, ele próprio, Napoleão III, o príncipe de Bismarck, o cardeal Manning, os Rothschilds, a imperatriz Eugénia, duquesas, lordes, marechais&#8230; Enfim um ramalhete de flores, pelo qual o editor Longman pagou cinquenta e quatro contos de réis fortes.<br />
Jovens de letras, meus amigos, ponde vossos olhos neste exemplo de ouro! Sê prudente, mancebo; nunca, ao entrar na carreira literária, publiques poema ou novela sem a antecipada precaução de ter sido durante alguns anos – primeiro-ministro de Inglaterra!</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/cartasdeinglaterra.wordpress.com/48/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/cartasdeinglaterra.wordpress.com/48/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/cartasdeinglaterra.wordpress.com/48/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/cartasdeinglaterra.wordpress.com/48/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/cartasdeinglaterra.wordpress.com/48/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/cartasdeinglaterra.wordpress.com/48/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/cartasdeinglaterra.wordpress.com/48/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/cartasdeinglaterra.wordpress.com/48/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/cartasdeinglaterra.wordpress.com/48/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/cartasdeinglaterra.wordpress.com/48/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/cartasdeinglaterra.wordpress.com/48/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/cartasdeinglaterra.wordpress.com/48/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/cartasdeinglaterra.wordpress.com/48/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/cartasdeinglaterra.wordpress.com/48/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartasdeinglaterra.wordpress.com&amp;blog=10527508&amp;post=48&amp;subd=cartasdeinglaterra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Literatura de Natal</title>
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		<pubDate>Wed, 23 Dec 2009 01:50:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>majorpipe</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8220;Eu às vezes pergunto a mim mesmo o que é que em Portugal lêem as pobres crianças. Creio que se lhes dá Filinto Elísio, Garção, ou outro qualquer desses mazorros sensaborões quando os infelizes mostram inclinação pela leitura. (&#8230;) Em lugar disso, apenas a luz do entendimento se abre aos nossos filhos, sepultamo-la sob grossas [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartasdeinglaterra.wordpress.com&amp;blog=10527508&amp;post=38&amp;subd=cartasdeinglaterra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><em><a href="http://cartasdeinglaterra.files.wordpress.com/2009/12/pc_magalhaes1.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-41" title="Livros!" src="http://cartasdeinglaterra.files.wordpress.com/2009/12/pc_magalhaes1.jpg?w=300&#038;h=247" alt="" width="300" height="247" /></a>&#8220;Eu às vezes pergunto a mim mesmo o que é que em Portugal lêem as pobres crianças. Creio que se lhes dá Filinto Elísio, Garção, ou outro qualquer desses mazorros sensaborões quando os infelizes mostram inclinação pela leitura. (&#8230;) Em lugar disso, apenas a luz do entendimento se abre aos nossos filhos, sepultamo-la sob grossas camadas de latim! Depois do latim acumulamos a retórica! Depois da retórica atulhamo-la de lógica (de lógica, Deus piedoso!). E assim vamos erguendo até aos céus o monumento da camelice!</em></strong><em><strong>&#8220;</strong></em><br />
<span id="more-38"></span><br />
Uma das coisas encantadoras que nos traz o Natal são esses lindos livros para crianças, que constituem a literatura de Natal.<br />
Não falo desses extraordinários volumes dourados publicados pelos editores franceses, em encadernações decorativas como fachadas de catedrais, que custam uma fortuna; contêm um texto que nunca ninguém lê e são oferecidos às crianças; mas realmente servem para obsequiar os papás. Os pobres pequenos nada gozam com esses monumentos tipográficos; apenas se lhes permite ver de longe as gravuras a aço, sob a fiscalização da mamã, que tem medo que se deteriore a encadernação; e o resplandecente volume orna daí por diante a jardineira da sala, ao lado do candeeiro vistoso.</p>
<p>Em Inglaterra existe uma verdadeira literatura para crianças, que tem os seus clássicos e os seus inovadores, um movimento e um mercado, editores e génios – em nada inferior à nossa literatura de homens sisudos. Aqui, apenas o bebé começa a soletrar possui logo os seus livros especiais: são obras adoráveis, que não contém mais de dez ou doze páginas, intercaladas de estampas, impressas em tipo enorme, e de um raro gosto de edição. Ordinariamente o assunto é uma história em seis ou sete frases, e decerto menos complicada e dramática que O Conde de Monte Cristo ou Nona; mas, enfim, tem os seus personagens, o seu enredo, a sua moral e a sua catástrofe.</p>
<p>Tal é, para dar um exemplo, a lamentável tragédia dos Três Velhos Sábios de Chester: eram muitos velhos e muito sábios; e para discutirem coisas da sua sabedoria meteram-se dentro de uma barrica, mas um pastor que vinha a correr atrás de uma ovelha deu um encontrão ao tonel, e ficaram de pernas ao ar os três velhos sábios de Chester! Como estas há milhares: a Cavalgada de João Gilpen é uma obra de génio.</p>
<p>Depois, quando o bebé chega aos seus oito ou nove anos, proporciona-se-lhe outra literatura. Os sábios, a barrica, os trambolhões, já o não interessariam; vêm então as histórias de viagens, de caçadas, de naufrágios, de destinos fortes, a salutar crónica do triunfo, do esforço humano sobre a resistência da Natureza.</p>
<p>Tudo isto é contado numa linguagem simples, pura, clara – e provando sempre que na vida o êxito pertence àqueles que têm energia, disciplina, sangue-frio e bondade. Raras vezes se leva o espírito da criança para o país do maravilhoso – não há nestas literaturas nem fantasmas, nem milagres, nem cavernas com dragões de escamas de ouro: isso reserva-se para a gente grande. E quando se fala de anjos ou de fadas é de modo que- a criança, naturalmente, venha a rir-se desse lindo sobrenatural, e a considerá-lo do género boneco, com os seus próprios cameirinhos de algodão.</p>
<p>O que se faz às vezes é animar de uma vida fictícia os companheiros inanimados da infância: as bonecas, os polichinelos, 0ç soldados de chumbo. Conta-se-lhes, por exemplo, a tormentosa existência de uma boneca honesta e infeliz ou os sofrimentos por que passou em campanha, numa guerra longínqua, uma caixa de soldados de chumbo. Esta literatura é profunda. As privações de soldados vivos não impressionariam talvez a criança – mas todo o seu coração se confrange quando lê que padecimentos e misérias atravessaram aqueles seus amigos, os guerreiros de chumbo, cujas baionetas torcidas ela todos os dias endireita com os dedos: e assim pode ficar depositado num espírito de criança um justo horror da guerra.<br />
As lições morais que se dão deste modo são inumeráveis, e tanto mais fecundas quanto saem da acção e da existência dos seres que ela melhor conhece – os seus bonecos.</p>
<p>Depois vêm ainda outros livros para os leitores de doze a quinze anos: popularizações de ciências; descrições dramáticas do universo; estudos cativantes do mundo das plantas, do mar, das aves; viagens e descobertas; a história; e, enfim, em livros de imaginação, a vida social apresentada de modo que nem uma realidade muito crua ponha no espírito tenro securas de misantropia, nem uma falsa idealização produza uma sentimentalidade mórbida.</p>
<p>É no Natal principalmente que esta literatura floresce. As lojas dos livreiros são então um paraíso. Não há nada mais pitoresco, mais original, mais decorativo, que as encadernações inglesas: e as estampas, as cores leves e agudas, oferecem quase sempre verdadeiras obras de arte, de graça e de humor.</p>
<p>Não sei se no Brasil existe isto. Em Portugal, nem em tal jamais se ouviu falar. Aparece uma ou outra dessas edições de luxo, de Paris, de que falei, e que constituem ornatos de sala. A França possui também uma literatura infantil tão rica e útil como a de Inglaterra: mas essa Portugal não a importa: livros para completar a mobília, sim; para educar o espírito, não.<br />
A Bélgica, a Holanda, a Alemanha, prodigalizam estes livros para crianças; na Dinamarca, na Suécia, eles são uma glória da literatura e uma das riquezas do mercado.</p>
<p>Em Portugal, nada.</p>
<p>Eu às vezes pergunto a mim mesmo o que é que em Portugal lêem as pobres crianças. Creio que se lhes dá Filinto Elísio, Garção, ou outro qualquer desses mazorros sensaborões quando os infelizes mostram inclinação pela leitura.<br />
Isto é tanto mais atroz quanto a criança portuguesa é excessivamente viva, inteligente e imaginativa. Em geral, nós outros, os Portugueses, só começamos a ser idiotas – quando chegamos à idade da razão. Em pequenos temos todos uma pontinha de génio: e estou certo que se existisse uma literatura infantil como a da Suécia ou da Holanda, para citar só países tão pequenos como o nosso, erguer-se-ia consideravelmente entre nós o nível intelectual.</p>
<p>Em lugar disso, apenas a luz do entendimento se abre aos nossos filhos, sepultamo-la sob grossas camadas de latim! Depois do latim acumulamos a retórica! Depois da retórica atulhamo-la de lógica (de lógica, Deus piedoso!). E assim vamos erguendo até aos céus o monumento da camelice!</p>
<p>Pois bem; eu tenho a certeza que uma tal literatura infantil penetraria facilmente nos nossos costumes domésticos e teria uma venda proveitosa. Muitas senhoras inteligentes e pobres se poderiam empregar em escrever essas fáceis histórias: não é necessário o génio de Zola ou de Thackeray para inventar o caso dos três velhos sábios de Chester. Há entre nós artistas, de lápis fácil e engraçado, que comentariam bem essas aventuras num desenho de simples contorno, sem sombras e sem relevo, lavado a cores transparentes&#8230; E quantos milhares de crianças se fariam felizes com esses bonitos livros – que para serem populares e se poderem despedaçar sem prejuízo devem custar menos de um tostão!</p>
<p>Eu bem sei que esta ideia de compor livros para crianças faria rir Lisboa inteira. Também não é a Lisboa que eu a ofereço. Lisboa não se ocupa destes detalhes.<br />
Lisboa quer coisa superior; quer a bela estrofe lírica, o rico drama em que se morre de paixão ao luar, o fadinho ao piano, o saboroso namoro de escada, a endecha plangente, boa facadinha à meia-noite, o discurso em que se cita o Gólgota, a andaluza de cuja – enfim, tudo o que o romantismo português inventou de mais nobre. Educar os seus filhos inteligentemente, está decerto abaixo da sua dignidade.</p>
<p>Mas, enfim, se estas linhas animassem aí no Brasil, ou entre a colónia portuguesa, um escritor, um desenhista e um editor a prepararem alguns bons livros, bem engraçados, bem alegres, para os bebés – eu teria feito ao império um serviço colossal,.que não sei como me poderia ser recompensado.</p>
<p>Uma boa fazenda, de rendimento certo, numa província rica, com casa já mobilada e alguns cavalos na cavalariça, não seria talvez de mais. Se a gratidão do Governo imperial quisesse juntar a isto, para alfinetes, um ou dois milhões em ouro, eu não os recusaria. E se me não quisessem dar nada, bastar-me-ia então que um só bebé se risse e fosse alguns minutos feliz. Pensando bem – é esta a recompensa que prefiro.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/cartasdeinglaterra.wordpress.com/38/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/cartasdeinglaterra.wordpress.com/38/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/cartasdeinglaterra.wordpress.com/38/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/cartasdeinglaterra.wordpress.com/38/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/cartasdeinglaterra.wordpress.com/38/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/cartasdeinglaterra.wordpress.com/38/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/cartasdeinglaterra.wordpress.com/38/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/cartasdeinglaterra.wordpress.com/38/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/cartasdeinglaterra.wordpress.com/38/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/cartasdeinglaterra.wordpress.com/38/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/cartasdeinglaterra.wordpress.com/38/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/cartasdeinglaterra.wordpress.com/38/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/cartasdeinglaterra.wordpress.com/38/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/cartasdeinglaterra.wordpress.com/38/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartasdeinglaterra.wordpress.com&amp;blog=10527508&amp;post=38&amp;subd=cartasdeinglaterra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>O Natal</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Dec 2009 01:03:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>majorpipe</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Os filósofos afirmam que isto há-de ser sempre assim: o mais nobre de entre eles, Jesus, cujo nascimento estamos exactamente celebrando, ameaçou-nos, numa palavra imortal, «que teríamos sempre pobres entre nós». Tem-se procurado com revoluções sucessivas fazer falhar esta sinistra profecia – mas as revoluções passam e os pobres ficam... O Natal, a grande festa [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartasdeinglaterra.wordpress.com&amp;blog=10527508&amp;post=27&amp;subd=cartasdeinglaterra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em><strong><img class="alignleft" title="O  velho borracho!" src="http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/4/42/MerryOldSanta.jpg/428px-MerryOldSanta.jpg" alt="" width="300" height="420" />Os filósofos afirmam que isto há-de ser sempre assim: o mais nobre de entre eles, Jesus, cujo nascimento estamos exactamente celebrando, ameaçou-nos, numa palavra imortal, «que teríamos sempre pobres entre nós». Tem-se procurado com revoluções sucessivas fazer falhar esta sinistra profecia – mas as revoluções passam e os pobres ficam.</strong>..</em><br />
<span id="more-27"></span><br />
O Natal, a grande festa doméstica da Inglaterra, foi este ano triste – dessa tristeza particular que oferece, por um dia de calma ardente, a praça deserta de uma vila pobre, ou dessa melancolia que infundem umas poucas de cadeiras vazias em torno de um fogão apagado, numa sala a que se não voltará mais&#8230;</p>
<p>O que nos estragou o Natal não foram decerto as preocupações políticas, apesar da sua negrura de borrasca. Nem a rebelião do Transval em que os Bóeres debutaram por exterminar o noventa e quatro de linha, um dos mais experimentados e gloriosos regimentos da Inglaterra, e que ameaça ensanguentar toda a África do Sul numa guerra de raças; nem a situação da Irlanda, que já não é governada pela Inglaterra, mas pelo comité revolucionário da Liga Agrária – seriam inquietações suficientes para tirar o sabor tradicional ao plum-pudding de Natal. As desgraças públicas nunca impedem que os cidadãos jantem com apetite: e misérias da pátria, enquanto não são tangíveis e se não apresentam sob a forma flamejante de obuses rebentando numa cidade sitiada, não tirarão jamais o sono ao patriota.</p>
<p>Não; o que estragou o Natal foi simplesmente a falta de neve. Um Natal como este que passámos, com um sol de uma palidez de convalescente, deslizando timidamente sobre uma imensa peça de seda azul desbotada; um Natal sem neve, um Natal sem casacos de peles, parece tão insípido e tão desconsolado como seria em Portugal a noite de S. João, noite de fogueiras e descantes, se houvesse no chão três palmas de neve e caísse por cima o granizo até de madrugada! Um desapontamento nacional! Para compreender bem o encanto da neve deste famoso Natal inglês, basta examinar alguma das pinturas, gravuras ou oleografias que o têm popularizado. O assunto não varia na paisagem repetida: é sempre a mesma entrada de um parque, de aparência feudal, por vésperas do Natal, antes da meia-noite; o céu pesado de neve suspensa parece uma gaze suja: e a perder de vista tudo está coberto da neve caída, uma neve branca, fofa, alta, que faz nos campos um grande silêncio. Junto à grade do parque, uma mulher e duas crianças, atabafadas nos seus farrapos, com lampiões na mão, vão cantando as loas; e ao fundo, entre as ramagens despidas, ergue-se o maciço castelo, com as janelas flamejando, abrasadas da grande luz de dentro e da alegria que as habita.<br />
E toda a poesia do Natal está justamente nessas janelas resplandecendo na noite nevada.</p>
<p>Felizes aqueles para quem essas portas difíceis se abrem. Logo ao entrar na antecâmara os tectos, as umbreiras, os espaldares das cadeiras, os troféus de caça, aparecem adornados das verduras do Natal, das ramagens sagradas do carvalho céltico; e pelas paredes, em letras douradas, ondeiam os dísticos tradicionais – Merry Christmas!, Merry Christmas! (Alegre Natal!, alegre Natal!) E o mesmo grito se repete nos shake-hands que se dão ao hóspede. Sob a chaminé estala e dança a grande fogueira do Natal: a sua luz rica faz parecer de ouro os cabelos louros e de prata as barbas brancas. Tudo está enfeitado como numa Páscoa sagrada: dos retratos dos avós pendem ramos de flores de Inverno, as flores da neve, e todas as pratas da casa cintilam sobre os aparadores, numa solenidade patriarcal.</p>
<p>Dos grandes lustres balança-se o ramo simbólico da árvore, do <em>mistletoe</em>, o ramo do amor doméstico: e ai das senhoras que um momento pararem sob a sua ramagem! Quem assim as surpreender tem direito a beijá-las num grande abraço! Também, que voltas sábias, que estratégia complicada, para evitar o ramo fatídico! Mas, pobres anjos, ou se enganam ou se assustam, e a cada momento é sob o<em> mistletoe</em> um grito, um beijo, dois braços que prendem uma cinta fugitiva. E o piano não se cala nestas noites! É alguma velha canção inglesa, em que se fala de torneios e cavaleiros, ou uma dança da Escócia, que se baila com o gentil cerimonial do passado. E por corredores e salas, as crianças, os bebés, com os cabelos ao vento, vestidos de branco e cor-de-rosa, correm, cantam, riem, vão a cada momento espreitar os ponteiros do relógio monumental, porque à meia-noite chega Santo Claus, o venerável Santo Claus, que tem três mil anos de idade e um coração de pomba, e que já a essa hora vem caminhando pela neve da estrada, rindo com os seus velhos botões, apoiado ao seu cajado, e com os alforges cheios de bonecos. Amável Santo Claus! Por um tempo tão frio, naquela idade, deixar a cabana de algodão que ele habita no País da Legenda e vir, por sobre ondas do mar e ramagens de florestas, trazer a estes bebés o seu Natal!<br />
Também, como eles, o adoram, o bom Claus! E apenas ele chegar, como correrão todos, em triunfo, a puxá-lo para o pé do lume, a esfregar-lhe as decrépitas mãos regeladas, a oferecer-lhe uma taça de prata cheia de hidromel quente – que ele bebe de um trago, o glutão! Depois abrem-se-lhe os alforges. Quantas maravilhas!&#8230;</p>
<p>Mas destes personagens que aparecem pelas consoadas, o meu predilecto é Father Christmas – o Papá Natal.<br />
Esse, porém, só pode ser admirado em toda a sua glória quando se abre a sala da ceia: então lá está sobre o seu pedestal, ao centro da mesa – que lhe põe em torno, com os cristais e os pratos, um amável brilho da auréola caseira. Bem-vindo, Papá Natal! Boas noites, Papá Natal! O respeitável ancião, com o seu capuz até aos olhos, todo salpicado de neve, as mãos escondidas nas largas mangas de frade, o olho maganão e jovial, esgarça a boca, num riso de felicidade sem fim, e as suas enormes barbas de algodão pendem-lhe até aos pés. Todas as crianças o querem abraçar, e ele não se recusa, porque é indulgente. E quanto mais a ceia se anima, mais o seu patriarcal riso se escancara: as bochechas reluzem-lhe de escarlates, as barbas parecem crescer-lhe, e ali está bonacheirão e venerável, com a importância de um deus tutelar e amado, como a encarnação sacramental da alegria doméstica. E no entanto, fora, na neve, as pobres crianças cantam as loas: e com que vigor também! É que elas sabem que não serão esquecidas, e que daqui a pouco a grade se abrirá e virá um criado, vergando ao peso de toda a sorte de coisas boas, peças de carne, empadas, vinho, queijos – e mesmo bonecas para os pequenos; porque Santo Claus é um democrata e, se enche os seus alforges para os ricos, gosta sobretudo de os ver esvaziados no regaço dos pobres.</p>
<p>Tudo isto é encantador. Mas tire-se-lhe a neve e fica estragado. O Natal com uma lua cor de manteiga a bater numa terra tépida de Primavera torna-se apenas uma data no calendário. O lume não tem poesia íntima; não há loas; Santo Claus não vem; o Papá Natal parece um boneco insípido; não se colhe o <em>mistletoe</em>. Não há mesmo a alegria de abrir a janela e pôr no rebordo, dentro de uma malga, a ceia de migalhas do Natal para os pardais e para os outros passarinhos que tanta fome sofrem pelas neves. Enfim, não há Natal! Foi o que sucedeu este ano&#8230;</p>
<p>Resta a consolação de que os pobres tiveram menos frio. E isto é o essencial; pensando bem, se nas cabanas houve mais algum conforto e se se não tiritou toda a noite entre quatro farrapos é perfeitamente indiferente que nos castelos as damas bocejassem. Nem eu sei realmente como a ceia faustosa possa saber bem, como o lume do salão chegue a aquecer – quando se considere que lá fora há quem regele e quem olhe, a um canto, triste, uma côdea de dois dias.</p>
<p>E justamente nestas horas de festa íntima, quando pára por um momento o furioso galope do nosso egoísmo – que a alma se abre a sentimentos melhores de fraternidade e de simpatia universal e que a consciência da miséria em que se debatem tantos milhares de criaturas volta com uma amargura maior. Basta então ver uma pobre criança pasmada diante da vitrina de uma loja, e com os olhos em lágrimas para uma boneca de pataco, que ela nunca poderá apertar nos seus miseráveis braços – para que se chegue à fácil conclusão que isto é um mundo abominável. Deste sentimento nascem algumas caridades de Natal; mas, findas as consoadas, o egoísmo parte à desfilada, ninguém torna a pensar mais nos pobres, a não ser alguns revolucionários endurecidos, dignos do cárcere: e a miséria continua a gemer ao seu canto!</p>
<p>Os filósofos afirmam que isto há-de ser sempre assim: o mais nobre de entre eles, Jesus, cujo nascimento estamos exactamente celebrando, ameaçou-nos, numa palavra imortal, «que teríamos sempre pobres entre nós». Tem-se procurado com revoluções sucessivas fazer falhar esta sinistra profecia – mas as revoluções passam e os pobres ficam.</p>
<p>Neste momento, por exemplo, na Irlanda os trabalhadores, ou antes os servos do ducado de Leicester, estão morrendo de fome, e o duque de Leicester está retirando anualmente, do trabalho duro que eles fazem, quatrocentos contos de réis de renda! E verdade que a Irlanda está em revolta; é verdade que, se o duque de Leicester se arriscava a visitar o seu ducado da Irlanda, receberia, sem tardar, quatro lindas balas no crânio. E o resultado? Daqui a vinte anos os trabalhadores de Leicester estarão de novo a sofrer a fome e o frio – e o filho do duque de Leicester, duque ele mesmo então, voltará a arrecadar os seus quatrocentos contos por ano. Não é possível mudar. O esforço humano consegue, quando muito, converter um proletariado faminto numa burguesia farta; mas surge logo das entranhas da sociedade um proletariado pior.<br />
Jesus tinha razão: haverá sempre pobres entre nós. Donde se prova que esta humanidade é o maior erro que jamais Deus cometeu.</p>
<p>Aqui estamos sobre este globo há doze mil anos a girar fastidiosamente em torno do Sol e sem adiantar um metro na famosa estrada do progresso e da perfectibilidade: porque só algum ingénuo de província é que ainda considera progresso a invenção ociosa desses bonecos pueris que se chamam máquinas, engenhos, locomotivas, etc., ou essas prosas laboriosas e difusas que se denominam sistemas sociais. Nos dois ou três primeiros mil anos de existência trepámos a uma certa altura de civilização, mas depois temos vindo rolando para baixo numa cambalhota secular.</p>
<p>O tipo secular e doméstico de uma aldeia árida do Himalaia, tal como uma vetusta tradição o tem trazido até nos, é infinitamente mais perfeito que o nosso organismo doméstico e social.<br />
Já não falo de gregos e romanos: ninguém hoje tem bastante génio para compor um coro de Ésquilo, ou uma página de Virgílio; como escultura e arquitectura, somos grotescos; nenhum milionário é capaz de jantar como Lúculo; agitavam-se em Atenas ou Roma mais ideias superiores num só dia do que nós inventámos num século; os nossos exércitos fazem rir, comparados às legiões dos Germânicos; não há nada equiparável à administração romana; o bulevar é uma viela suja ao lado da Via Ápia; nem uma Aspásia temos; nunca ninguém tornou a falar como Demóstenes – o servo, o escravo, essa miséria da Antiguidade, não era mais desgraçado que o proletário moderno.</p>
<p>De facto, pode-se dizer que o homem nem sequer é superior ao seu venerável pai – o macaco – excepto em duas coisas temerosas – o sofrimento moral e o sofrimento social. Deus tem só uma medida a tomar com esta humanidade inútil: afogá-la num dilúvio. Mas afogá-la toda, sem repetir a fatal indulgência que o levou a poupar Noé; se não fosse o egoísmo senil desse patriarca borracho, que queria continuar a viver para continuar a saber, nós hoje gozaríamos a felicidade inefável de<em> não sermos</em>&#8230;</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/cartasdeinglaterra.wordpress.com/27/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/cartasdeinglaterra.wordpress.com/27/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/cartasdeinglaterra.wordpress.com/27/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/cartasdeinglaterra.wordpress.com/27/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/cartasdeinglaterra.wordpress.com/27/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/cartasdeinglaterra.wordpress.com/27/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/cartasdeinglaterra.wordpress.com/27/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/cartasdeinglaterra.wordpress.com/27/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/cartasdeinglaterra.wordpress.com/27/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/cartasdeinglaterra.wordpress.com/27/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/cartasdeinglaterra.wordpress.com/27/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/cartasdeinglaterra.wordpress.com/27/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/cartasdeinglaterra.wordpress.com/27/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/cartasdeinglaterra.wordpress.com/27/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartasdeinglaterra.wordpress.com&amp;blog=10527508&amp;post=27&amp;subd=cartasdeinglaterra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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			<media:title type="html">O  velho borracho!</media:title>
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		<title>O Inverno em Londres</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Nov 2009 17:58:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>majorpipe</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Londres, apenas habitada pela turba abjecta, torna-se sobre a face da Terra como a lamentável Cacilhas. Nenhum gentleman que se respeite e queira manter o seu bom nome social ousaria confessar que esteve em Londres em Janeiro: correria o risco de ser tomado por um tendeiro, ou, pior, por um filósofo, um poeta, um desses [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartasdeinglaterra.wordpress.com&amp;blog=10527508&amp;post=21&amp;subd=cartasdeinglaterra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft" title="Vendedor de Castanhas no Terreiro do Paço, lisboa." src="http://fotografiasjcd.files.wordpress.com/2008/10/2006-12-23-terreiro-do-paco-vendedor-2-of-2.jpg?w=207&#038;h=138" alt="" width="207" height="138" /></p>
<p><em><strong>Londres, apenas habitada pela turba abjecta, torna-se sobre a face da Terra como a lamentável Cacilhas. Nenhum gentleman que se respeite e queira manter o seu bom nome social ousaria confessar que esteve em Londres em Janeiro: correria o risco de ser tomado por um tendeiro, ou, pior, por um filósofo, um poeta, um desses seres rastejantes, vis como o lixo, sem castelo e sem matilha de cães, que nenhuma lady quereria ter no seu «rol de visitas».</strong></em><br />
<span id="more-21"></span><br />
Eis aí o Inverno. Já todos os dias o encontro e, agora mesmo, lhe ouço fora na rua, sob a névoa tristonha desse fim de Outono, a voz dolente e vaga: não é o velho semideus de atributos mitológicos, com a barba em flocos de neve sobre o manto branco de neve, soprando nos dedos, e o clássico feixe de lenha a tiracolo: é um rapagão enfarruscado, de casquete e chicote em punho, que vai conduzindo uma carroça negra, com um forte percheron aos varais pelo macadame já endurecido da geada, e soltando de porta em porta o seu pregão melancólico: «Coals!, coals!» (Carvão!, carvão!)<br />
Estão, pois, findos os dias purpureados do lindo Outono inglês! Nada iguala o encanto suavizador e meigo dos meados de Outubro nestes condado do Sul. Um passeio, ao meio da tarde, nas pitorescas margens do Severn, ou ainda ao longo do Avon, riba que a memória de Shakespeare torna quase sagrada, ou pelas colinas amáveis de Surrey, é o mais belo, o mais útil repouso que pode ter o espírito sobressaltado, cansado dos livros, ou do duro movimento<br />
da vida.<br />
Tem-se aqui alguma coisa daquela «paz etérea» que os poetas pagãos sonhavam nas perspectivas inefáveis dos Eliseus: somente a natureza particular do Norte, as linhas da arquitectura saxónia, o arranjo das culturas, dão a feição romântica e elegíaca que falta à paisagem latina.<br />
Caminha-se numa luz ligeira, de um dourado triste, de um enternecimento quase magoado: o verde das relvas sem fim que se pisam, verde repousado e adormecido sob as grandes ramagens das árvores seculares e aristocráticas, solenes, isoladas, imóveis num recolhimento religioso, leva a alma insensivelmente para alguma coisa de muito alto e de muito puro: há um<br />
silêncio de uma extraordinária limpidez, como por sobre as nuvens, um silêncio que não existe na paisagem dos climas quentes, onde o labor incessante das seivas, muito forte, parece fazer um vago rumorido, um silêncio que pousa no espírito com a influência de uma carícia, e a cada<br />
momento são fundos encantadores de paisagem, de um vaporizado azul, com alguma torre de abadia coberta de heras que surge de entre robles, ou uma rica avenida de parques, onde se entrevêem vestidos claros correndo sobre as relvas, ou a histórica arquitectura de um castelo, de bandeira feudal na torre, que de repente aparece numa elevação, com os seus terraços de<br />
mármore escuro, os grandes prados onde pastam ou repousam os animais de luxo, os faiscantes meandros do rio entre a verdura e sons tristes de trompa, vindos da profundidade dos arvoredos&#8230;<br />
Daqui a dias, porém, por colina e vale só haverá a triste névoa calmosa que dura meses, ou a neve redemoinhando ao vento&#8230;<br />
Esta monotonia que começa escurecendo os campos desde Novembro vai causar este ano uma inovação excelente nos costumes sociais da Inglaterra. Vai haver de Dezembro a Maio uma estação de Inverno, em Londres.<br />
Como sabem, Londres só é habitado desde os começos de Maio até aos primeiros dias quentes de Agosto. O resto do ano, Londres é a caída Palmira ou a tenebrosa planície do deserto da Petreia. Ficam lá, é verdade, entre três a quatro milhões de humanidade: mas é uma humanidade subalterna, feita de barro vilão, sem valor social em Inglaterra: é a humanidade que não tem castelos, nem parques de três léguas, nem o seu nome no Livro de Ouro, nem iates de luxo para bordejar nas costas da Escócia; é a humanidade que não tem nas artérias o famoso sangue normando, esse sangue invejado, mais precioso que o de Cristo, cantado por todos os poetas da corte, e que foi importado pelos brutamontes cobertos de ferro e peludos como feras que acompanharam a essas ilhas Guilherme da Normandia. E enfim a humanidade que Carlos Stuart, o Bem Amado, chamava a canalha, e que o grande sacerdote da Bela Helena, o pobre Offenbach, designava, com tanto critério, pelo nome de vil multidão – é o trabalhador, o artífice, o artista, o professor, o filósofo, o operário, o romancista, tudo o que pensa, cria e produz.<br />
É esta fresca ralé que fica em Londres: de modo que apenas a humanidade superior, os dez mil de cima, como aqui tão pitorescamente se diz, partem para os seus castelos, as suas vilas à beira-mar, ou os seus iates – Londres, apenas habitada pela turba abjecta, torna-se sobre a face da Terra como a lamentável Cacilhas. Nenhum gentleman que se respeite e queira manter o seu bom nome social ousaria confessar que esteve em Londres em Janeiro: correria o risco de ser tomado por um tendeiro, ou, pior, por um filósofo, um poeta, um desses seres rastejantes, vis como o lixo, sem castelo e sem matilha de cães, que nenhuma lady quereria ter no seu «rol de visitas».<br />
Se um gentleman, tendo negócios instantes em Londres, é forçado a vir a este deserto de plebeus, guarda um incógnito severo; não chegará talvez a pôr barbas postiças; mas só se arrisca pelas ruas no fundo escuro de um cupé com os estores descidos, e o paletó rebuçando-lhe a face. Todavia uma aventura tão poderosa poucos a ousam!<br />
Pois bem, tudo isto se vai reformar! E este ano será moda passear em Piccadilly, ou florear de rosa ao peito em Pall Mall, em pleno Janeiro, na espessura dos nevoeiros. Esta revolução considerável foi, como todas as fecundas revoluções, tramada, pregada, popularizada pelas mulheres.<br />
Havia longos anos que estes anjos sofriam com impaciência a melancolia da vida do campo, durante o longo Inverno saxónico. Ainda nos primeiros, depois de deixar as glórias de Londres e os esplendores da seuson, a existência era tolerável. Havia as regatas elegantes de Cowes; ia-se estar uma semana na ilha de Wight; depois vinham as festas da abertura da caça; seguia-se a época dos iates, as viagens às costas da Noruega, às Hébridas, às praias elegantes da Normandia; depois, quando a corte está na Escócia, vinha a caça do veado, os bailes de gellies das montanhas. Enfim, vivia-se.<br />
Mas, com a chegada de Dezembro, da neve, uma formidável lei social, a fashion, obrigava os dez mil de cima a recolherem-se aos seus castelos, à solidão do campo. E aí começava para as damas o tédio memorável!<br />
Quando se não tem um château o parque como os de Inglaterra pode parecer um sonho de paraíso o viver nessas faustosas residências, entre maravilhas de arte, acumuladas por gerações, com mobílias de duzentos contos, um serviço de setenta criados, vinte cavalos na cocheira e um parque de três léguas, um parque de romance para passear sobre a neve dura quando o céu brilha claro.</p>
<p>Mas a desgraçada dama, desde o seu primeiro dente acostumada a tantos esplendores, já lhes não encontra encanto; uma simples corrida, num velho fiacre de Londres, de loja em loja, é-lhe cem vezes mais doce.<br />
Depois a vida do castelo é de um vazio pardo e tristonho. Os homens, esses, de manhã, têm a caça, os galopes furiosos, devorando prados, saltando sebes atrás de uma raposa espavorida, ao grito bárbaro de Tally-ho! Depois à noite, tomado o banho e vestida a casaca, têm o grogue forte no fumoir. Mas as desgraçadas damas? Todas bebem grogue – mas raras são as que caçam. O dia é-lhes lúgubre. Uma burguesa, em Inglaterra, tem sempre uma ocupação,<br />
mesmo nas existências ricas, borda, pinta em porcelana, faz camisas para os pequenos patagónios, ensina a ler os filhos dos caseiros, escreve as suas memórias ou corresponde-se com um teólogo sobre pontos difíceis de doutrina. Mas um dama das dez mil não faz nada; os seus grandes talentos, a toilette, a graça de receber, a intriga política, o brilhante da conversação, o chique estético, coisas em que prima, não lhe servem no isolamento relativo do castelo, sob as torrentes da chuva. O seu palco natural é o salão de Londres. Ali no campo, nas longas galerias onde pendem as bandeiras que os seus antepassados tomaram em Azincourt ou Poitiers, ou, se os avózinhos nunca invadiram a França, as bandeiras compradas no antiquário da esquina, mylady boceja; ou estendida num sofá, na sua robe-de-chambre de brocado branco de Génova, com uma novela caída no regaço, olha os flocos de neve<br />
empoando os grandes carvalhos do parque&#8230;<br />
Depois vem a noite. O pior. Os homens, que fizeram talvez cinco léguas de galope atrás das raposas ou que se estiveram adestrando em jogos atléticos, têm sono. De gardénia na casaca e pérola negra na camisa, estendidos para o fundo do sofá, derreados, meio adormentados pelo Nocturno de Chopin que um anjo louro preludia ao fundo da sala, são tão inúteis para a flirtation, o espírito, a intriga, o amor, como se fossem empalhados.</p>
<p>Debalde as pobres damas fizeram uma toilette de duzentas libras: debalde resplandecem às mil luzes de cera os seus ombros de deusas. De nada vale. O gentleman anseia por deixar a sala, ir reconfortar-se com o seu brandy and soda, estirar aqueles membros que a raposa cansou em lençóis bem perfumados e bem bassinés, e ressonar forte.<br />
Esta situação era intolerável.<br />
E os homens mesmo sofriam. Galopar num cavalo de preço sobre a terra dura da neve, ao ladrar da matilha, por uma manhã de brisa fria – tem encanto. Mas pode-se isso comparar à delícia de ir tagarelar para o clube, ter todas as noites três ou quatro bailes, fazer frases sobre a questão do Oriente, cear com Miss Fanny num quente boudoir de veludo, enquanto fora a plebe patinha na lama de Londres! Não, não se pode comparar.<br />
E por isso veio o momento psicológico, como diz esse ilustre homem de prosa, o senhor de Bismarck, em que ladies e lordes concordaram que o Inverno no campo era bom para os lobos; e que, para pares de Inglaterra, Londres era preferível. E aí está como se vai ter esta coisa inesperada na vida inglesa – o Inverno de Londres.<br />
E, todavia, Deus sabe que ele não é agradável, esse Inverno de Londres! De manhã, ao acordar, tem-se diante da janela uma sonora opaca, espessa, parda, arrepiadora e sinistra: é necessário fazer a barba com o gás flamejando; almoça-se com todas as velas do candelabro acesas, e a carruagem que me conduz é precedida de um archote. Ao meio-dia esta<br />
decoração de inferno muda; a sombra perde o tom pardo e, por gradações odiosas, ganha um amarelo de oca e começa a exalar um vapor fétido. Respira-se mal, a roupa toma um pegajoso húmido sobre a pele, os edifícios que nos cercam aparecem com as linhas vagas e quiméricas das cidades malditas do Apocalipse e o estrondo de Londres, este rude, tremendo estrépito, que deve há em cima incomodar a corte do céu, adquire uma tonalidade surda e roncante como um fragor num subterrâneo.</p>
<p>Depois, à noite, outra mudança: toda esta sombra, este nevoeiro grosso, mole gorduroso, desfaz-se em chuva&#8230; Em chuva, digo eu? Em lama em lama mal líquida, que escorre, pinga! Vem babada de um céu negro.<br />
O gás parece cor de sangue; como todo o mundo, para combater esta névoa gelante e mortal, bebe forte e bebe seguido, há nas ruas um vago vapor a álcool, que passa os hálitos: isto excita, irrita, impele a turba ao vício. O ruído intolerável das ruas, a pressa da multidão violenta, o rude flamejar das vitrinas dão uma aceleração brutal ao sangue, uma vibração quase dolorosa aos nervos; pensa-se com intensidade, caminha-se com ímpeto, deseja-se<br />
com furor; a besta humana inflama-se: quer-se alguma coisa de forte e de animal, a luta, o excesso, a gula, o abrasado do conhaque, a paixão. Londres numa noite de Inverno, exala violência e crime. E pode-se afirmar que em cada uma das tipóias que, aos milhares e aos milhares, passam como flechas, com relampejar rubro de lanternas, vai um cidadão ou uma cidadã cometendo ou preparando-se para cometer, com excepção da preguiça, um dos sete pecados mortais.<br />
De uma coisa se pode ter a certeza: é que não há-de faltar, aos que vão fazer o seu Inverno a Londres, assunto de cavaco. Além dos livros que se anunciam, dos escândalos que não hão-de faltar, das modas que sempre se inventam, a política, só por si, é todo um ramalhete; revolta certa na Irlanda; processo por alta traição dos chefes da Liga da Terra, deputados da Irlanda; nova guerra no Afeganistão, onde Cabul se insurreccionou; toda a África do Sul em<br />
rebelião; complicações sinistras do lado do Oriente; desinteligências estridentes entre os radicais no poder&#8230; Enfim, um encanto.<br />
Era em circunstâncias idênticas que o famoso Ganville, o homem das Memórias, olhando num começo de Primavera para todos os lados do horizonte político e social, e não vendo (em 1830) senão presságios negros de revolta, guerra, crises e perigos para a pátria, dizia, banhado em júbilo, quase em êxtase:<br />
– Meu Deus, que deliciosas noites se vão passar no clube!</p>
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		<title>Acerca de Livros</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Nov 2009 18:09:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>majorpipe</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Quem hoje encontrar, em algum intrincado ponto do globo, um sujeito de capacete de cortiça, lápis na mão, binóculo a tiracolo, não pense que é um explorador, um missionário, um sábio coligindo floras raras – é um prosador inglês preparando o seu volume. Outubro chegou, e com este mês, em que as folhas caem, começam [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartasdeinglaterra.wordpress.com&amp;blog=10527508&amp;post=15&amp;subd=cartasdeinglaterra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://cartasdeinglaterra.files.wordpress.com/2009/11/byblosemcrise_22723_30_10_n.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-16" title="byblosemcrise_22723_30_10_N" src="http://cartasdeinglaterra.files.wordpress.com/2009/11/byblosemcrise_22723_30_10_n.jpg?w=300&#038;h=245" alt="" width="300" height="245" /></a><strong><em>Quem hoje encontrar, em algum intrincado ponto do globo, um sujeito de capacete de cortiça, lápis na mão, binóculo a tiracolo, não pense que é um explorador, um missionário, um sábio coligindo floras raras – é um prosador inglês preparando o seu volume.<br />
</em></strong><span id="more-15"></span><br />
Outubro chegou, e com este mês, em que as folhas caem, começam aqui a aparecer os livros, folhas às vezes tão efémeras como as das árvores, e não tendo como elas o encanto do verde, do murmúrio e da sombra.<br />
Estamos com efeito em plena book-season, a estação dos livros.</p>
<p>Estes dois meses, Setembro e Outubro (e eles merecem-no porque como cor, luz, repouso, são os mais simpáticos do ano), têm acumulado em si as mais interessantes seasons, as estações mais fecundas da vida inglesa.<br />
A London-season, a célebre estação de Londres, quando a aristocracia, maior e menor, os dez mil de cima, como se dizia antigamente, o folhado, como se diz agora, recolhe dos parques e palácios do campo aos seus palacetes e jardinetes de Londres – passa-se em Abril, Junho e Julho, verdade seja. Mas essa é uma vã e oca estação de trapos, de luvas de vinte botões, de lacaios, de champanhe, de batota e de cotillon. Enquanto que as outras!&#8230;<br />
Olhem-me para estas sábias, úteis, viris, solenes seasons, que abundam nestes dourados meses de Setembro e Outubro. Isto sim! Aqui temos, por exemplo, a congress-season, a estação dos congressos.<br />
Que espectáculo! Toda a verde superfície da Inglaterra está então de norte a sul salpicada de manchas negras. São congressos em deliberação. Há-os de metafísicos e há-os de cozinheiros.<br />
Aqui, duzentos indivíduos carrancudos e descontentes elaboram uma nova ordem social; além, uma multidão de sábios, acocorados, semanas inteiras, em torno de um objecto escuro, não podem chegar à conclusão se é um tijolo vilmente recente ou uma laje da câmara nupcial da rainha Guinevra; e adiante cavalheiros anafados e luzidios assentam a doutrina definitiva da engorda do leitão, esse amor!<br />
Os congressos mais notáveis este ano foram – o de medicina em Londres, a que assistiram mil e trezentos congressistas médicos e cirurgiões dos dois mundos e dos dois sexos, e onde se prometeu à humanidade, para daqui a anos, a supressão das epidemias pelas vacinas; o da British Association, a grande Sociedade das Ciências (congresso anual celebrado este ano em York), em que o presidente, Sir John Lubbock, esse amável sábio que tem passado a existência a estudar as civilizações inferiores dos insectos, laboriosas democracias de formigas, deploráveis oligarquias de abelhas – ocupou-se desta vez, dando um balanço à ciência durante os últimos cinquenta anos, a mostrar algumas das estupendas habilidades desse outro efémero insecto, o homem: e, enfim, um congresso anual da Igreja, celebrado em Newcastle, composto de bispos, dignitários eclesiásticos, teólogos, doutores em divindade, este largo clero anglicano, o mais douto e literário da Europa; entre outros assuntos discutiu-se a «influência da arte na vida e no pensar religioso&#8230;mas, quanto a mim, o resultado mais nítido foi o revelar incidentalmente que a frequentação dos templos, em Inglaterra, diminui de um terço todos os dez anos, ao passo que o espírito de religiosidade cresce nas massas, tornando-se assim o sentimento religioso cada dia mais desprendido das formas caducas e perecíveis das religiões.</p>
<p>Neste momento há outros congressos – o dos metalurgistas, o das ciências sociais, o dos telegrafistas, o arqueológico, o dos gravadores, o dos&#8230; Enfim, centenares. Até o dos browninguistas. Não sabem o que são os browninguistas? Uma vasta associação tendo por fim estudar, comentar, interpretar, venerar, propagar, ilustrar, divinizar as obras do poeta Browning. Isto, mesmo neste país de arrebatados entusiasmos intelectuais, me parece um pouco forte. Browning é sem dúvida, com Shelley, Shakespeare e Milton, um dos quatro príncipes da poesia inglesa: mas tem o inconveniente de estar vivo. Ele próprio assiste, materialmente, com o seu paletó e o seu guarda-chuva, ao congresso de que é objecto espiritual e assunto: e fatalmente, pelo efeito mesmo da sua presença, a admiração literária tende a tornar-se idolatria pessoal, e os shake-hands que ele distribui começam naturalmente a ser mais apreciados no congresso que os poemas que ele escreveu. Por isso mesmo que o divinizam, o amesquinham: não é então o grande poeta de Inglaterra, é o ídolo particular dos browninguistas, deixa assim de ser um espírito falando a espíritos– para ser apenas um manipanso aterrorizando supersticiosos.</p>
<p>Mas continuando com as estações. Temos ainda ayachting-season, a estação náutica, das regatas, das viagens em iate. Hoje em Inglaterra ter um iate é como entre nós montar carruagens, o primeiro dever social do rico ou do enriquecido, uma das formas mais triviais do conforto luxuoso. Um iate não é só um frágil e airoso barco de cinquenta toneladas e vela branca; pode ser um negro e ponderoso vapor de duas mil toneladas e sessenta homens de tripulação. Neste último caso, em lugar de bordejar gentilmente em redor das flores e das relvas da ilha de Wight, ou de ir mergulhar nessas prodigiosas paisagens marinhas do alto Norte da Escócia, vai dar a volta ao mundo, car-regado de bíblias para os pequenos patagónicos e de champanhe e de amor para as lindas missionárias, vestidas de marinheiras. A vida de iate tem os seus costumes especiais, a sua etiqueta, a sua fraseologia, a sua moral própria e, sobretudo, a sua literatura. A literatura de iate é vasta – William Black, o autor das Asas Brancas, do Nascer do Sol, da Princesa de Thude, o seu romancista oficial: um paisagista maravilhoso, de resto, tendo na sua pena todo o vigor do pincel de um Jules Breton.</p>
<p>Temos igualmente neste mês a shooting-season, a estação da caça ao tiro, que abre no primeiro de Setembro com uma solenidade tal, e no meio de um interesse público tão intenso, tão fremente – que me dá sempre ideia do que devia ter sido nas vésperas da Grande Revolução a abertura dos Estados Gerais. Peço perdão desta abominável comparação – mas a carne é fraca e eu considero esta estação sublime. E nela que se caça o grouse, e é durante ela que se come o grouse. Não sabem o que é o grouse? É um pássaro, do tamanho da perdiz, que vive (Deus o abençoe) nos moors, ou descampados da Escócia&#8230; Agora deixem-me repousar um momento e ficar aqui, num êxtase manso, pensando no grouse, com as mãos cruzadas sobre o estômago, o olho enternecido, lambendo o lábio&#8230; Não imaginem que eu sou um guloso. Mas nunca se deve falar nas coisas boas sem veneração. Lord Beaconsfield, esse mestre do bom gosto, deu-nos o exemplo quando, tendo mencionado num dos seus livros o ortolan, esse outro delicioso pássaro, acrescentou que o peitinho gordo do ortolan é mais delicioso que o seio da mulher, o seu aroma mais perturbador que os lilases e o sabor da sua febra melhor que o sabor da verdade: pode-se dizer o mesmo do grouse.<br />
Continuando, temos a burglary-season, a estação dos assaltos e roubos às casas. Esta começa também em Setembro, quando a gente rica sai de Londres e deixa os seus palacetes, ou fechados, ou ao cuidado de um velho e sonolento guarda-portão. Os salteadores de Londres, corpo social tão bem organizado como a própria policia, procede então sistematicamente, por quadrilhas disciplinadas, usando os mais perfeitos meios científicos, ao arrombamento e ao saque dessas propriedades abarrotadas de coisas ricas&#8230;</p>
<p>Temos a lecture-season, ou estação das conferências. O seu nome explica-a e seria longo detalhar-lhe a organização. Basta dizer que nesta estação não há talvez um bairro em Londres (quase podia dizer uma rua), nem uma aldeia no resto do país, em que se não veja cada noite um sujeito, com um copo de água, dissertando sobre um assunto, diante de uma audiência compacta, atenta, interessada e que toma notas. Os assuntos são tudo – desde a ideia de Deus até à melhor maneira de fabricar graxa. E os conferentes são todo o mundo – desde o professor Huxley até um qualquer cavalheiro, o senhor Fulano de Tal, que sobe à plataforma a contar as suas impressões de viagem às ilhas Fiji, ou as aptidões curiosas que observou no seu cão&#8230;</p>
<p>Há ainda outras estações que basta enunciar: a hunting-season, a estação da caça à raposa (isto é todo um mundo); a cricket-season, a estação em que se joga o críquete – e em que se vêem destes edificantes espectáculos: doze cavalheiros vindos do fundo da Austrália, outros doze partindo dos altos da Escócia, e encontrando-se em Londres a jogar ao desafio uma tremenda partida que dura três dias, na presença arrebatada de um povo em delírio! Isto é um grande país!</p>
<p>Temos também a angling-season, a estação da pesca à linha, instituição nobilíssima a que a humanidade deve o salmão e a truta. E o desporto favorito da alta burguesia culta, da magistratura, dos homens de sapiência, daquela parte da velha aristocracia sobre que mais pesam as responsabilidades do Estado. Todo este mundo, de solene respeitabilidade e de alto cerimonial – pesca à linha. Talvez por isso, de todos os desportos ingleses, a pesca à linha é um dos que têm produzido uma literatura mais considerável – tão considerável que a sua bibliografia, a simples enumeração dos seus tratados, ocupa um livro de duzentas páginas! Aí observo com respeito a notícia de um ponderoso estudo sobre a pesca à linha entre os Assírios&#8230; Isto é um país imenso!</p>
<p>Só esta semana a literatura da pesca à linha nos deu já dois livros, segundo as listas: A Carteira de Um Pescador à Linha; Pela Beira dos Rios.<br />
Temos ainda a travelling-season, a estação das viagens, quando o famoso turista inglês faz a sua aparição no continente. Nesta época (Setembro e Outubro) todo o inglês que se respeita (ou que não podendo em sua consciência respeitar-se pretende ao menos que o seu vizinho o respeite) prepara umas dez ou doze malas e parte para os países do sol, do vinho e da alegria. Os anjos (se o não sonharam, como diz João de Deus) devem assistir então do seu terraço azul a um espectáculo bem divertido: toda a Inglaterra fervilhando no porto de Dover – e daí sucessivamente partirem longos formigueiros de turistas, riscando de linhas escuras o continente, indo alastrar os vales do Reno, negrejando pela neve dos Alpes a cima serpenteando pelos vergéis da Andaluzia, atulhando as cidades da Itália, inundando a França! Tudo isto são ingleses. Tudo isto traz um Guia do Viajante debaixo do braço. Tudo isto toma notas. Isto às vezes viaja com a esposa, a cunhada, uma amiga da cunhada, uma conhecida desta amiga, sete filhos, seis criados, dez cães e outros cães conhecidos destes cães: e isto paga por tudo isto sem resmungar! Não: não digo bem, resmungando sempre. Esta viagem de prazer passa-a quase sempre o inglês a praguejar (mentalmente – porque nem a Bíblia nem a respeitabilidade lhe permitem praguejar alto).</p>
<p>A verdade é que o inglês não se diverte no continente: não compreende as línguas; estranha as comidas; tudo o que é estrangeiro, maneiras, toilettes, modos de pensar, o choca; desconfia que o querem roubar; tem a vaga crença de que os lençóis nas camas do hotel nunca são limpos; o ver os teatros abertos ao domingo e a multidão divertindo-se amargura a sua alma cristã e puritana; não ousa abrir um livro estrangeiro porque suspeita que há dentro coisas obscenas; se o seu Guia lhe afirma que na catedral de tal há seis colunas e se ele encontra só cinco, fica infeliz toda uma semana e furioso com o pais que percorre, como um homem a quem roubaram uma coluna; e se perde uma bengala, se não chega a horas ao comboio, fecha-se no hotel um dia inteiro a compor uma carta para o Times, em que acusa os países continentais de se acharem inteiramente num estado selvagem e atolados numa pútrida desmoralização. Enfim, o inglês em viagem é um ser desgraçado. É evidente que eu não aludo aqui à numerosa gente de luxo, de gosto, de literatura, de arte: falo da vasta massa burguesa e comercial. Mas mesmo esta encontra uma compensação a todos os seus trabalhos de turista quando, ao recolher a Inglaterra, conta aos seus amigos como esteve aqui e além, e trepou ao monte Branco, e jantou numa table-d&#8217;hôtel em Roma, e, por Júpiter!, fez uma sensação dos diabos, ele e as meninas!&#8230;</p>
<p>Que mais estações temos ainda? A speech-season, a estação dos discursos, quando, nas férias do parlamento, todos os homens públicos se espalham pelo pais discursando, perante enormes meetings, sobre os negócios públicos. E uma das feições mais curiosas da vida política em Inglaterra. Há outras muitas estações em Setembro e Outubro, mas não me lembram agora. E enfim, para não ser injusto, devo mencionar também o Outono.</p>
<p>De todas estas, para mim, naturalmente, a mais interessante é a book-season, a estação dos livros.<br />
Isto não quer dizer que fora desta estação (Outubro a Março) se não publiquem livros em Inglaterra – longe disso, Santo Deus! Como não quer dizer que fora da London-season se não dance, ou fora da travelling-season se não viaje. Significa simplesmente que as grandes casas editoras de Londres e de Edimburgo reservam para as lançar nesta época as suas grandes novidades. Um livro de Darwin, um estudo de Matthew Arnold, um poema de Tennyson, um romance de George Meredith serão evidentemente guardados para a estação. De resto, durante todo o ano não se interrompe, não cessa essa publicidade fenomenal, essa vasta, ruidosa, inundante torrente de livros, alastrando-se, fazendo pouco a pouco sobre a crosta da terra vegetal do globo uma outra crosta de papel impresso em inglês.</p>
<p>Não sei se é possível calcular o número de volumes publicados anualmente em Inglaterra. Não me espantaria que se pudessem contar por dezenas de milhares. Aqui tenho eu diante de mim, no número de ontem do Spectator, a lista dos livros lançados esta semana: noventa e três obras! E isto é apenas a lista do Spectator. Apenas o que se chama aqui «literatura geral&#8230; Não se contam as reimpressões; nem as edições dos clássicos, em todos os formatos, desde o fólio, que só um hércules pode erguer, ao volume-miniatura, cujo tipo reclama microscópio, e em todos os preços, desde a edição que custa cinquenta libras até à que custa cinquenta réis: não se contam as traduções de livros estrangeiros, sobretudo as literaturas da Antiguidade; não se conta, enfim, essa incessante produção das universidades, essoutra levada de gregos e latinos, de comentá-rios, de glossários, de in-fólios, que lançam de si, aos essa outra levada de gregos e latinos, de comentários, de glossários, de in-folios, que lançam de si, aos caixões, as imprensas de Clarendon.</p>
<p>Há nesta literatura geral uma espécie de que o Inglês não se farta – a literatura de viagens. Já não falo nos romances: isso não constitui hoje uma produção literária, é uma fabricação industrial.<br />
Na vida doméstica inglesa, a novela tornou-se um objecto de primeira necessidade, como a flanela ou as fazendas de algodão: e, portanto, toda uma população de romancistas se emprega em manufacturar este artigo por grosso e tão depressa quanto a pena pode escrever, arremessando para o mercado as páginas mal secas no ansioso conflito da concorrência.</p>
<p>Mas a gula, a gulodice de livros de viagem é também considerável, e de resto bem explicável numa raça expansiva e peregrinante, com esquadras em todos os mares, colónias em todos os continentes, feitorias em todas as praias, missionários entre todos os bárbaros, e no fundo da alma o sonho eterno, o sonho amado de refazer o Império Romano. Isto produziu um outro industrial–o prosador viajante.</p>
<p>Antigamente contava-se a viagem quando casualmente se tinha viajado: o homem que visitava países longínquos, se se achava em aventuras pitorescas, à volta, repousando ao canto do seu lume, tomava a pena e ia revivendo esses dias numa agradável rememoração de impressões e paisagens. Hoje, não. Hoje empreende-se a viagem unicamente &#8211; para se escrever o livro. Abre-se o mapa, escolhe-se um ponto do universo bem selvagem, bem exótico, e parte-se para lá com uma resma de papel e um dicionário. E toda a questão está (como a concorrência é grande) em saber qual é o recanto da Terra sobre que ainda se não publicou livro! Ou, quando o pais é já toleravelmente conhecido, se não terá ainda alguma aldeola, algum afastado riacho sobre que se possam produzir trezentas páginas de prosa&#8230;</p>
<p>Quem hoje encontrar, em algum intrincado ponto do globo, um sujeito de capacete de cortiça, lápis na mão, binóculo a tiracolo, não pense que é um explorador, um missionário, um sábio coligindo floras raras – é um prosador inglês preparando o seu volume.</p>
<p>Nada elucida como um exemplo. Aqui está a lista dos livros de viagens publicados em Londres nestas duas últimas semanas.<br />
É claro que eu não os li, nem sequer os enxerguei. Copio os títulos, somente, da lista de dois jornais de crítica: o Atheneum e a Academy. Note-se que estes livros são quase sempre bem estudados: dão o traço e a linha que pinta, a paisagem com a sua cor e luz, a cidade com o seu movimento e feições; são gráficos e são críticos; têm a geografia e têm a observação; e mais ou menos fazem reviver com o detalhe característico o povo visitado, na sua vida doméstica, a sua religião, a sua agricultura, o seu desporto, os seus vícios, a sua arte, se a tem. Calcule-se, pois, a importância desta literatura, que se toma assim um inquérito sagaz, paciente, correcto, feito ao universo inteiro.</p>
<p>Aqui está, com os títulos traduzidos, o que se publicou nestes quinze dias: A Minha Jornada a Medina; Entre os Filhos de Han; Nas Águas Salgadas; Longe, nas Pampas; Santuários de Piemonte; O Novo Japão; Uma Visita à Abissínia; Vida no Oeste da Índia; Pelo Mahakam a cima, e pelo Bania a baixo; A Cavalo pela Ásia Menor; Cenas de Ceilão; Através de Cidades e Prados; No Meu Bungaló; As Terras dos Matabeles; Fugindo para o Sul; Terras do Sol da Meia-Noite; Peregrinações na Patagónia; O Sudão Egípcio; Terra dos Magiares; Através da Sibéria; Notas do Mundo do Oeste; Caminhos da Palestina; Norsk, Lapp e Finn (onde será isto Santo Deus!); Guerras, Peregrinações e Ondas (Que título, Deus piedoso!); A Linda Atenas; A Península do Mar Branco; Homens e Casos da Índia; A Bordo do «Raposo» Desporto na Crimeia e Cáucaso; Nove Anos de Caçadas na África; Diário de Uma Preguiçosa na Sicília; A Leste do Jordão&#8230;<br />
Ainda há outros, ainda há muitos – e em quinze dias!<br />
Seria curioso dar paralelamente a lista de poemas, livros de poesias, odes, baladas, tragédias, anunciados ou já publicados na primeira quinzena da estação – mas não tenho paciência em revolver todo esse lirismo. Há uma «grande sensação»: o livro de Dante Rosseti, um dos mestres modernos: o resto é apenas um bando amoroso e triste de rouxinóis.<br />
Não menos espessas, nem menos compactas, são as listas dos livros de teologia, controvérsia, exegese, etc. – exalando de si uma melancolia de cemitério. Em metafísica há o costumado sortimento – maciço e vago, como diria Herbert Spencer. Em história, biografia, crítica, as listas bibliográficas vêm riquíssimas&#8230; Enfim, ao que parece, é uma formidável e grandiosa estação de livros. Aos romances, nem aludo: montões, montanhas – e monturos!</p>
<p>Uma pastora meio selvagem das Ardenas, que nunca vira outro espectáculo mais grato ao seu coração do que as cabras que guardava, foi um dia trazida das suas serranias a Paris, quando no bulevar passava, com a tricolor ao vento, um regimento em marcha. A pobre donzela fez-se branca como a cera, e só pôde murmurar numa beatitude suprema:</p>
<p>– Jesus!, tanto homem!</p>
<p>Eu sei que estou aqui fazendo o papel ridículo desta pastora, e balbuciando, com a boca aberta, como se chegasse também das Ardenas:</p>
<p>– Jesus!, tanto livro!</p>
<p>Mas não é este grito, como o da pastora, natural?<br />
O beduíno do deserto do Oeste que, passando a serrania líbica, avista pela primeira vez, imenso, lento, enchendo um vale, o rio Nilo, exclama espantado:</p>
<p>– Alá!, tanta água!</p>
<p>A água é a sua preocupação: todas as tristezas das areias que habita vêm da falta da água: mais que ninguém sente as maravilhas que a água produz; e no seu grito há uma tímida repreensão a Alá! «Tanta água aqui e tão pouca lá donde eu venho&#8230;<br />
Assim eu venho&#8230; Mas o resto da comparação complete-a, antes, o leitor astuto&#8230;</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/cartasdeinglaterra.wordpress.com/15/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/cartasdeinglaterra.wordpress.com/15/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/cartasdeinglaterra.wordpress.com/15/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/cartasdeinglaterra.wordpress.com/15/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/cartasdeinglaterra.wordpress.com/15/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/cartasdeinglaterra.wordpress.com/15/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/cartasdeinglaterra.wordpress.com/15/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/cartasdeinglaterra.wordpress.com/15/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/cartasdeinglaterra.wordpress.com/15/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/cartasdeinglaterra.wordpress.com/15/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/cartasdeinglaterra.wordpress.com/15/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/cartasdeinglaterra.wordpress.com/15/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/cartasdeinglaterra.wordpress.com/15/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/cartasdeinglaterra.wordpress.com/15/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartasdeinglaterra.wordpress.com&amp;blog=10527508&amp;post=15&amp;subd=cartasdeinglaterra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Afeganistão e Irlanda</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Nov 2009 16:31:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>majorpipe</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Em 1847, os Ingleses – «por uma razão de estado, uma necessidade de fronteiras científicas, a segurança do império, uma barreira ao domínio russo da Ásia&#8230;» e outras coisas vagas que os políticos da Índia rosnam sombriamente retorcendo os bigodes – invadem o Afeganistão, e aí vão aniquilando tribos seculares, desmantelando vilas, assolando searas e [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=cartasdeinglaterra.wordpress.com&amp;blog=10527508&amp;post=3&amp;subd=cartasdeinglaterra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://cartasdeinglaterra.files.wordpress.com/2009/11/troopsdm0803_468x432-e1258495374808.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-8" title="Alguém se esqueceu de lhes avisar que o Império já acabou?..." src="http://cartasdeinglaterra.files.wordpress.com/2009/11/troopsdm0803_468x432-e1258495374808.jpg?w=300&#038;h=276" alt="" width="300" height="276" /></a><strong><em>Em 1847, os Ingleses – «por uma razão de estado, uma necessidade de fronteiras científicas, a segurança do império, uma barreira ao domínio russo da Ásia&#8230;» e outras coisas vagas que os políticos da Índia rosnam sombriamente retorcendo os bigodes – invadem o Afeganistão, e aí vão aniquilando tribos seculares, desmantelando vilas, assolando searas e vinhas: apossam-se, por fim, da santa cidade de Cabul; sacodem do serralho um velho emir apavorado; colocam lá outro de raça mais submissa, que já trazem preparado nas bagagens, com escravas e tapetes; e logo que os correspondentes dos jornais têm telegrafado a vitória, o exército, acampado à beira dos arroios e nos vergéis de Cabul, desaperta o correame e fuma o cachimbo da paz&#8230; Assim é exactamente em 1880.</em></strong>..<br />
<span id="more-3"></span><br />
Os Ingleses estão experimentando, no seu atribulado império da Índia, a verdade desse humorístico lugar-comum do século XVIII:<br />
«A história é uma velhota que se repete sem cessar.»<br />
O fado ou a Providência, ou a entidade qualquer que lá de cima dirige os episódios da campanha do Afeganistão, em 1847, está fazendo simplesmente uma cópia servil, revelando assim uma imaginação exausta.</p>
<p>Em 1847, os Ingleses – «por uma razão de estado, uma necessidade de fronteiras científicas, a segurança do império, uma barreira ao domínio russo da Ásia&#8230;» e outras coisas vagas que os políticos da Índia rosnam sombriamente retorcendo os bigodes – invadem o Afeganistão, e aí vão aniquilando tribos seculares, desmantelando vilas, assolando searas e vinhas: apossam-se, por fim, da santa cidade de Cabul; sacodem do serralho um velho emir apavorado; colocam lá outro de raça mais submissa, que já trazem preparado nas bagagens, com escravas e tapetes; e logo que os correspondentes dos jornais têm telegrafado a vitória, o exército, acampado à beira dos arroios e nos vergéis de Cabul, desaperta o correame e fuma o cachimbo da paz&#8230; Assim é exactamente em 1880.</p>
<p>No nosso tempo, precisamente em 1847, chefes enérgicos, messias indígenas, vão percorrendo o território, e com grandes nomes de pátria, de religião, pregam a guerra santa: as tribos reúnem-se, as famílias feudais correm com os seus troços de cavalaria, príncipes rivais juntam-se no ódio hereditário contra o estrangeiro, o homem vermelho, e em pouco tempo é todo um rebrilhar de fogos de acampamento nos altos das serranias, dominando os desfiladeiros que são o caminho, a entrada da Índia&#8230; E quan6o por ali aparecer, enfim, o grosso do exército inglês, à volta de Cabul, atravancado de artilharia, escoando-se espessamente por entre as gargantas das serras, no leito seco das torrentes, com as suas longas caravanas de camelos, aquela massa bárbara rola-lhe em cima e aniquila-o.<br />
Foi assim em 1847, é assim em 1880. Então os restos debandados do exército refugiam-se em alguma das cidades da fronteira, que ora é Gasnat ora Candaar: os Afegãs, correm, põem o cerco, cerco lento, cerco de vagares orientais: o general sitiado, que nessas guerras asiáticas pode sempre comunicar, telegrafa para o vice-rei da Índia, reclamando com furor «reforços e chá e açúcar!» (Isto é textual; foi o general Roberts que soltou há dias este grito de gulodice britânica; o Inglês, sem chá, bate-se frouxamente.) Então o governo da Índia, gastando milhões de libras como quem gasta água, manda a toda a pressa fardos disformes de chá reparador, brancas colinas de açúcar e dez ou quinze mil homens. De Inglaterra partem esses negros e monstruosos transportes de guerra, arcas de Noé a vapor, levando acampamentos, rebanhos de cavalos, parques de artilharia, toda uma invasão temerosa&#8230; Foi assim em 47, assim é em 1880.</p>
<p>Esta hoste desembarca no Indostão, junta-se a outras colunas de tropa hindu e é dirigida dia e noite sobre a fronteira em expressos a quarenta milhas por hora; daí começa uma marcha assoladora, com cinquenta mil camelos de bagagens, telégrafos, máquinas hidráulicas e uma cavalgada eloquente de correspondentes de jornais. Uma manhã avista-se Candaar ou Gasnat – e num momento é aniquilado, disperso no pó da planície, o pobre exército afegã com as suas cimitarras de melodrama e as suas veneráveis colubrinas de modelo das que outrora fizeram fogo em Diu. Gasnat está livre! Candaar está livre! Hurra! Faz-se imediatamente disto uma canção patriótica; e a façanha é por toda a Inglaterra popularizada numa estampa, em que se vê o general libertador e o general sitiado apertando-se a mão com veemência, no primeiro plano, entre cavalos empinados e granadeiros belos como Apoios, que expiram em atitude nobre! Foi assim em 1847; há-de ser assim em 1880&#8230;</p>
<p>No entanto, em desfiladeiro e monte, milhares de homens, que ou defendiam a pátria ou morriam pela fronteira científica, lá ficam, pasto de corvos o que não é, no Afeganistão, uma respeitável imagem de retórica: aí, são os corvos que nas cidades fazem a limpeza das ruas, comendo as imundícies, e em campos de batalha purificam o ar, devorando os restos das derrotas.<br />
E de tanto sangue, tanta agonia, tanto luto, que resta por fim? Uma canção patriótica, uma estampa idiota, nas salas de jantar, mais tarde uma linha de prosa numa página de crónica&#8230;<br />
Consoladora filosofia das guerras!<br />
No entanto a Inglaterra goza por algum tempo a «grande vitória do Afeganistão» com a certeza de ter de recomeçar daqui a dez anos ou quinze anos; porque nem pode conquistar e anexar um vasto reino, que é grande como a França, nem pode consentir, colados à sua ilharga, uns poucos de milhões de homens fanáticos, batalhadores e hostis. A «política», portanto, é debilitá-los periodicamente, com uma invasão arruinadora. São as fortes necessidades de um grande império. Antes possuir apenas um quintalejo, com uma vaca para o leite e dois pés de alface para as merendas de Verão&#8230;</p>
<p>Outra história melancólica é a da Irlanda. Quem não conhece as queixas seculares da Irlanda, da Verde Em, terra de bardos e terra de santos, onde uma plebe conquistada, resto nobre de raça céltica, esmagada por um feudalismo agrário, vivendo em buracos como os servos góticos, vai desesperadamente disputando à urze, à rocha, ao pântano, magras tiras de terra, onde cultiva em lágrimas a batata?</p>
<p>Todo o mundo sabe isto e desgraçadamente esta Irlanda de poema e de novela é, em parte, verdadeira: além dos poucos distritos onde a agricultura é rica como em qualquer dos ubérrimos condados ingleses, além de Cork ou Belfast, que têm uma indústria forte – a Irlanda permanece o país da miséria, bem representada nessa estampa romântica em que ela está, em andrajos, à beira de um charco, com o filhinho nos braços morrendo-lhe da falta de leite, e o cão ao lado, tão magro como ela, ladrado em vão por socorro&#8230;<br />
Os males da Irlanda, muito antigos, muito complexos, provêm sobretudo do sistema semifeudal da propriedade.<br />
O povo irlandês é numeroso, exageradamente prolífico (nem a emigração, nem a morte, nem as epidemias, aliviam esta ilha muito cheia), e vive numa terra pobre de cultura, estreita, apenas no seu terço trabalhada: os proprietários, lordes ingleses ou escoceses, sempre ausentes das terras, não admitindo a despesa de um xelim para as melhorar, estão em Paris, estão em Londres, comendo pêssegos em Janeiro e jogando pelos clubes o whist a libra o tento: os seus procuradores e agentes, criaturas vorazes, sem ligação com o solo nem com a raça, forçados a remeter incessantemente dinheiro a suas senhorias, interessados em conservar a procuradoria, caem sobre o rendeiro, levantam-lhe a renda, forçam-no a vendas desastrosas, enlaçam-no na usura, tributam-no feudalmente, apertam-no com desespero como a um limão meio seco, até que ele verta num gemido o último penny. Se o miserável, este ano, fatigando o torrão, sustentando-se de ervas secas, economizando o lume quando há seis palmos de neve, consegue arrancar de si a soma que sua senhoria, o lorde, reclama para oferecer uma esmeralda à loura Fanny ou à pálida Clementine, para o ano lá está enleado na dívida, sem meios de comprar a semente, com uma terra exausta a seus pés&#8230;<br />
Então o procurador, de lei em punho, vem, corre, penhora-o, vende-lhe o catre, expulsa-o do casebre, atira-lhe mulher, criancinhas e avós entrevados para as pedras do caminho&#8230; E aí vai mais um bando de desgraçados engrossar o lamentável proletariado que povoa a «verde ilha dos bardos».</p>
<p>São milhares, são milhões! Esta população, com o ventre vazio, os pés nus sobre a geada, volta-se então para a Inglaterra, a mãe Inglaterra, que tem a lei, que tem a força, que tem a responsabilidade: a Inglaterra, comovida na sua fibra cristã, volta-se para os seus economistas, os seus políticos: estes indivíduos pousam as suas vastas frontes nas suas vastas mãos, arrancam das concavidades da sua sabedoria farisaica esta resposta, tenebrosa resposta da Meia Idade às reclamações do sofrimento humano:<br />
— Paciência, o remédio está no céu.<br />
A Inglaterra, valendo-se copiosamente do clero católico da Irlanda e da religiosidade da plebe para a manter na resignação da miséria, acena-lhe com as promessas cor de ouro da bem-aventurança – é um salutar espectáculo.<br />
Sejamos porém justos: a Inglaterra manda também, aos milhões de esfomeados, farinha e dois ou três xelins: e o Punch faz-lhes honra de lhes dedicar pilhérias.<br />
De tudo isto que resulta? Que o Irlandês, vendo que a fome está nele, a Inglaterra ocupada com o Dr. Tanner, o Punch muito divertido e o céu muito longe – faz uma trouxa dos seus andrajos, vai à vila mais próxima, apresenta-se ao comité dos Fenians ou à secção de Mollie Maguire e diz simplesmente: «Aqui estou!&#8230;»<br />
Estas duas associações secretas são terríveis e completam-se uma pela outra. Os Fenians, que estiveram um momento desorganizados, mas que têm hoje a prosperidade de uma instituição pública, são uma seita política, com o fim claro de conquistar a independência da Irlanda: o seu meio é uma futura insurreição, batalhas à luz do dia, um esforço heróico de raça que sacode o estrangeiro,<br />
E evidente, portanto, que a Inglaterra não tem nada a temer desta associação: uma esquadra no canal de S. José, dez mil homens desembarcados e os Fenians serão, no estilo da canção, como a erva dos campos depois que passou o ceifador, um estendal de coisas sem vida! Mas não é assim com Mollie Maguire; esta constitui puramente uma conspiração: os seus estatutos, os seus fins, a sua organização, os seus chefes, tudo está envolvido num mistério, que é o terror na Irlanda; só são claros os seus crimes. Há um proprietário duro que levantou a renda? Uma noite, ou ele ou o seu procurador aparecem a beira de um caminho, com duas balas na cabeça. Quem foi? Foi Mollie Maguire: foi ninguém, foi a miséria, foi a Irlanda. Há um senhorio, um agente, que fez uma penhora? A meia-noite, a sua casa começa a arder, e é num momento uma ruína fumegante. Quem foi? Mollie Maguire. Houve um burguês especulador que comprou o casebre de um proprietário penhorado? No outro dia lá está no fundo de uma lagoa, com um pedregulho ao pescoço. Quem foi, coitado? Mollie Maguire. Todos os dias, nestes últimos meses, são assim, dois, três destes crimes – que têm em Inglaterra o nome de agrários. Os tribunais, a polícia, já se não fatigam em devassas e em autos: para quê? Mollie Maguire é intangível, Mollie Maguire é impessoal.<br />
E se houvesse um magistrado tão desgostoso da vida que quisesse descobrir donde viera a bala, o pedregulho ou o fogo – teria certamente, horas depois, o que tanto parecia desejar: um punhal através do peito. São verdadeiramente os processos do niilismo militante: nem falta a esta seita aquela vaga exaltação mística que complica o niilismo. Se Mollie (Mollie é o diminutivo de Maria) não é uma divindade, é pelo menos uma degeneração fetichista da divindade: é a tenebrosa padroeira das desforras da plebe, aquela em que os desgraçados abandonados de Deus, do Deus oficial, do Deus da missa, encontram socorro, amizade, força – uma sorte de encarnação feminina do Diabo de Sabbath, do Diabo confidente dos servos e dos feiticeiros da meia-noite.<br />
A estas duas associações deve juntar-se uma terceira, legal essa, falando alto nas praças, com jornais, com tabuleta, vivendo sob a protecção da constituição, respeitada da polícia, e que se chama a Liga da Terra. O seu fim é promover, por meio de meetings e representações, uma vasta agitação, um impulsivo movimento da opinião, que force o parlamento inglês a reformar o sistema agrário. Mas é realmente uma associação legal? São os seus fins tão honestamente moderados, tão estreitamente constitucionais como se diz? Todo o mundo o duvida. Na Irlanda, sempre que dois homens se reúnem conspiram: quando se sentem quatro, apedrejam logo a polícia: que será então quando reconhecerem que são duzentos mil? Além disso, as reclamações desta associação são de um vago singular: nada de prático, nada de realizável: apenas os velhos gritos sentimentais da aspiração humanitária.</p>
<p>E ao mesmo tempo os homens que a dirigem são espíritos positivos e experimentados. Há aqui uma contradição assustadora. Sente-se que os chefes deste movimento, sabendo bem que da Inglaterra nada têm a esperar, estão simplesmente, sob as aparências da legalidade, organizando a insurreição: formular um programa prático para o parlamento votar seria, na opinião deles, ocioso e pueril: as declamações verbosas em que se fale muito de legalidade, ordem, parlamen-tarismo bastam para iludir a política&#8230; E não é duvidoso que, num certo momento, Fenians, Mollie Maguire e Liga da Terra formarão um só movimento – o da revolta desesperada.<br />
Este era o estado da Irlanda há dois meses, quando se deu o caso inesperado do Bill de Compensação. Este projecto de lei, apresentado pelo ministro Gladstone (parte por um sentimento liberal de justiça, parte para agradecer os fortes serviços dos Irlandeses nas últimas eleições), não trazia certamente um remate aos males da Irlanda; mas, coarctando os abusos dos senhores, dificultando a arbitrariedade das «expulsões», modificando a legislação bárbara das penhoras, aliviava o trabalhador irlandês do férreo calcanhar feudal que o esmaga. O bill passou aos aplausos da Câmara dos Comuns: mas escuso de acrescentar que a Câmara dos Lordes, essa augusta e gótica assembleia de senhores semifeudais, o rejeitou com horror, como a obra mesma do liberalismo satânico!<br />
Vêem daí o resultado: os agitadores da Irlanda, os seus profetas, os seus chefes, apossaram-se com entusiasmo desta rejeição da Câmara dos Lordes – e utilizaram-na tão habilmente como António utilizou a túnica ensanguentada de César. Foram-na mostrando à plebe indignada, por campos e aldeias, gritando bem alto: «Aqui está o que fizeram os lordes, os vossos amos, os vossos exploradores! A primeira proposta justa, em bem da Irlanda, que se lhes apresenta, repelem-na! Querem manter-vos na servidão, na fome, no opróbrio das velhas idades, no estado da raça vencida! Às armas!»<br />
E desde então a Irlanda prepara-se ardentemente para a insurreição: apesar dos cruzeiros que vigiam a costa, todos os dias há desembarques de armas; o dinheiro, os voluntários afluem da América: pelos campos vêem-se grupos de duzentos, trezentos homens, de espingardas ao ombro, fazendo exercícios como regimentos cm vésperas de campanha; ainda que seja agora a época das colheitas, a população não está nos campos, está nos meetings, nos clubes; e os tribunos, os agitadores, prodigalizam-se sem repouso. Não falta decerto a estes homens nem coragem, nem aquela eloquência patética que faz passar nas multidões o arrepio sagrado. Um deles, Redathd, exclamava há dias:<br />
«Dizem-nos a cada momento: sede justos, pagai ao lorde, pagai ao senhorio! E citam-nos a palavra divina daquele que disse: &#8220;Dai a César o que é de César!&#8221; Houve só um homem, Brutus, que deu a César o que a César era devido, um punhal através do coração!»<br />
Esta brutalidade tem grandeza. Agora imagine-se isto lançado a uma multidão oprimida, com gestos teatrais desta raça violenta, de noite, num destes sinistros descampados da Irlanda, que são todos rocha e urze, ao clarão de archotes, dando aquela intermitência de treva e brilho que é como a alma mesma da Irlanda – e veja-se o efeito!<br />
Em Inglaterra, mesmo os optimistas consideram a insurreição quase inevitável para os frios do Outono. E o honesto John Bull prepara-se: já o ministro do Interior está em Dublin, e é iminente a declaração da lei marcial&#8230; Neste ponto, radicais e conservadores são unânimes: se a Irlanda se levanta, que se esmague a Irlanda! Somente John Buhl declara que o seu coração há-de chorar enquanto a sua mão castigar&#8230; Excelente pai!<br />
O jornal Standard, o venerável Standard, tinha há dias uma frase adorável: «Se, como é de temer, a Irlanda vier a esquecer-se do que deve a si e à Inglaterra», exclamava o solene Standard, «é doloroso pensar que no próximo Inverno, para manter a integridade do império, a santidade da lei e a inviolabilidade da propriedade, nós teremos de ir, com o coração negro de dor, mas a espada firme na mão, levar à Irlanda, à ilha irmã, à ilha bem-amada, uma necessária exterminação.»<br />
Exterminação é muito: e quero crer que está ali para rematar com uma nota grave, uma nota de órgão, a harmonia do passado. Mas o sentimento é curioso e raro: seria um espectáculo maravilhoso – ver, no próximo Inverno, John Bull percorrendo a Irlanda, cheio de ferocidade e afogado em ternura, com os olhos a escorrer de lágrimas e a sua baioneta a pingar de sangue&#8230; Ainda as fatais necessidades de um grande império! Volto ao meu desejo – um quintalejo, uma vaca, dois pés de alface&#8230; E um cachimbo, o cachimbo da paz.</p>
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