Os Ingleses no Egipto – I

Todos os que conhecem a história contemporânea de Portugal e de outros curiosos países constitucionais sabem bem o que significa esta deliciosa frase: «El-rei está coacto!» Isto quer dizer que sua majestade se acha em palácio, cercado de uma populaça carrancuda que agarrou em chuços, arranjou uma bandeira no alto de um pau e vem impor esta fórmula prodigiosamente desagradável para el-rei: diminuição de autoridade régia e aumento de liberdade pública…

Se el-rei conserva por trás do palácio alguns regimentos fiéis, enverga nesse momento a farda de generalíssimo e manda acutilar o seu povo: se desgraçadamente, porém, os soldados estão unidos aos cidadãos, então el-rei declara-se coacto, pede a um rei vizinho, mais forte e menos atarantado, que lhe mande uma divisão, a restabelecer a ordem – isto é, a assegurar a sua majestade a sua soma intacta de autoridade régia, dispersando a tiro a tentativa de liberdade pública. Isto hoje já realmente se não usa na Europa: mas no Oriente, ao que parece, é ainda um método muito decente de acalmar os descontentamentos nacionais.

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O Que Resta de Alexandria – A Estreia de Arabi Paxá – Algemas ao Café

Até há cinco ou seis semanas Alexandria podia ser descrita no estilo convidativo dos Guias de viajantes como uma rica cidade de duzentos e cinquenta mil habitantes, entre europeus e árabes, animada, especuladora, próspera, tornando-se rapidamente uma Marselha do Oriente. Nenhum Guia, porém, por mais servilmente lisonjeiro, poderia chamar-lhe interessante.

Apesar dos seus dois mil anos de idade, de ter sido, depois de Atenas e Roma, o maior centro de luxo, de letras e de comércio que floresceu no Mediterrâneo, a velha cidade dos Ptolomeus não possuía hoje nenhum monumento do seu passado, a não contarmos, ao lado de um velho cemitério muçulmano, uma coluna erigida outrora por um prefeito romano em honra de Diocleciano, conhecida pelo sobrenome singular de Pilar de Pompeu, e mais longe, estendido num areal, um obelisco faraónico do templo de Luxor, que gozava a grotesca alcunha de Agulha de Cleópatra. E esta mesma relíquia está agora em Londres, no aterro do Tamisa, pousada numa peanha de bronze, alumiada pela luz eléctrica, aturdida pelo estrondo dos comboios…

Os bairros europeus de Alexandria quase recentes (há cinquenta anos, antes de Mehemet Ali dar o impulso à sua reedificação, a grande metrópole que espantava o califa Omar estava reduzida a uma aldeia vivendo da pesca e do comércio de esponjas) compunham-se principalmente de uma vasta praça, a famosa Praça dos Cônsules, orgulho de todo o Levante, e de ruas largas, com nomes franceses, estuque francês nas fachadas, tabuletas francesas nas lojas, cafés franceses, lupanares franceses – como um faubourg de Bordéus ou de Marselha transportado para o Egipto e empenachado aqui e além de palmeiras.
A parte árabe da cidade não tinha nenhum pitoresco oriental: eram arruamentos quase direitos, com casebres lavados a cal e terminando em terraço, pousados num solo, meio de terra e meio de areia, que a menor brisa do mar espalhava em nuvens pelo ar. Cidade feia à vista, desagradável ao olfacto, reles, insalubre, Alexandria visitava-se à pressa, ao trote de uma tipóia, e depressa se apagava da memória, apenas o comboio do Cairo deixava a estação e se ausentavam, entre as primeiras culturas do Delta, ao longo dos canais, as filas de íbis brancos, os mais velhos habitantes do Egipto, outrora deuses, ainda hoje aves sagradas…

Todavia, tal qual era. Alexandria, com a sua baía atulhada de paquetes, de navios mercantes e de navios de guerra; com os seus cais cheios de fardos e de gritaria, os seus grandes hotéis, as suas bandeiras flutuando sobre os consulados, os seus enormes armazéns, os seus centenares de tipóias descobertas, os seus mil cafés-concertos e os seus mil lupanares; com as suas ruas, onde os soldados egípcios, de fardeta de linho branco, davam o braço à marujada de Marselha e de Liverpul, onde as filas de camelos, conduzidos por um beduíno de lança ao ombro, embaraçavam a passagem dos trâmueis americanos, onde os xeques, de turbante verde, trotando no seu burro branco, se cruzavam com as caleches francesas dos negociantes, governadas por cocheiros de libré – Alexandria realizava o mais completo tipo que o mundo possuía de uma cidade levantina, e não fazia má figura, sob o seu céu azul-ferrete, como a capital comercial do Egipto e uma Liverpul do Mediterrâneo.

Isto era assim há cinco ou seis semanas.
Hoje, à hora em que escrevo, Alexandria é apenas um imenso montão de ruínas.

Do bairro europeu, da famosa Praça dos Cônsules, dos hotéis, dos bancos, do escritórios das companhias, dos cafés-lupanares, resta apenas um confuso entulho sobre o solo e, aqui e além, uma parede enegrecida que se vai aluindo.
Pela quarta vez na história, Alexandria deixou de existir.

Tratando-se do Egipto, terra das antigas maldições, pode-se pensar, em presença de tal catástrofe, que passou por ali a cólera de Jeová – uma dessa cóleras de que ainda estremecem as páginas da Bíblia quando o Deus único, vendo uma cidade cobrir-se da negra crosta do pecado, corria de entre as nuvens a cicatrizá-la pelo fogo como uma chaga viva da Terra. Mas desta vez não foi Jeová. Foi simplesmente o almirante inglês Sir Beauchamp Seymour, em nome da Inglaterra e usando com vagar e método, por ordens do governo liberal do Sr. Gladstone, os seus canhões de oitenta toneladas.

Seria talvez desonesto, decerto seria desproporcionado, o juntar aos nomes dos homens fortes que nestes últimos dois mil anos se têm arremessado sobre Alexandria e a têm deixado em rumas – aos nomes de Caracala, o pagão, de Cirilo, o santo, de Diocleciano, o perseguidor, e de Ben-Amon, o sanguinário – o nome de Sr. William Gladstone, o humanitário, o paladino das nacionalidades tiranizadas, o apóstolo da democracia cristã.

Mas se por um lado, evidentemente, a política do Sr. Gladstone não é um produto de pura ferocidade pessoal, como a de Caracala, que fez arrasar Alexandria porque um poeta dessa cidade fatalmente dado às letras o molestara num epigrama – por outro lado esta brusca agressão de uma frota de doze couraçados, cidadelas de ferro flutuando sobre as águas, contra as decrépitas fortificações de Mehemet Ali, este bombardeamento de uma cidade egípcia estando a Inglaterra em paz com o Egipto, parece-se singularmente com a política primitiva do califa Omar ou dos imperadores persas, que consistia nisto: ser forte; cair sobre o fraco, destruir vida e empolgar fazenda.

Donde se vê que isso a que se chama aqui a «política imperial de Inglaterra» ou «os interesses da Inglaterra no Oriente», pode levar um ministro cristão a repetir os crimes de um pirata muçulmano, e o Sr. Gladstone, que é quase um santo, a comportar-se pouco mais ou menos como Ben-Amon, que era inteiramente um monstro. Antes não ser ministro de Inglaterra! E foi o que pensou o venerável John Brigth, que, para não partilhar a cumplicidade desta brutal destruição de uma cidade inofensiva, deu a sua demissão do Gabinete, separou-se dos seus amigos de cinquenta anos e foi modestamente ocupar o seu velho banco de oposição…

Tudo o que se prende imediatamente com a aniquilação de Alexandria é de fácil história – sobretudo traçando só as linhas principais, as únicas que podem interessar quem está moral e materialmente a três mil léguas do Egipto e das suas desgraças.

No princípio de Junho passado, o almirante inglês Sir Beauchamp Seymour achava-se nas águas de Alexandria, comandando uma formidável frota; e tendo ancorado ao seu lado uma esquadra francesa com o pavilhão do almirante Conrad, a França e a Inglaterra estavam ali com morrões acesos, vigiando Alexandria, de camaradagem, como tinham estado nos últimos dois anos no Cairo, de pena atrás da orelha, fiscalizando, de camaradagem, as finanças egípcias: porque sabem decerto que, tendo o Egipto (endividado até ao alto das pirâmides para com as burguesias financeiras de Paris e Londres) omitido o pagamento de alguns cupões – a França e a Inglaterra esponsavam maternalmente os interesses dos seus agiotas, e instalavam no Cairo dois cavalheiros, os Srs. Coloin e Blegnières, ambos com funções de secretários da Fazenda no ministério egípcio, ambos encarregados de colher a receita, geri-la e aplicar-lhe a parte mais pingue à amortização e juros da famosa dívida egípcia!

De sorte que as duas bandeiras da Inglaterra e da França, eram na realidade dois enormes papéis de crédito, içados no alto dos couraçados. No almirante Seymour e no almirante Conrad reapareceram os dois burgueses, Coloin e Blegnières. E na baía de Alexandria, perante o Egipto, um dos grandes falidos do Oriente, as frotas unidas das duas altas civilizações do Ocidente representavam simplesmente a usura armada.

Isto era assim na realidade. Oficialmente, porém, os couraçados estavam ali fazendo uma demonstração naval, de facto realizando uma intervenção estrangeira – porque se tinham dado casos no Egipto e o quediva declarara-se coacto.

Todos os que conhecem a história contemporânea de Portugal e de outros curiosos países constitucionais sabem bem o que significa esta deliciosa frase: «El-rei está coacto!» Isto quer dizer que sua majestade se acha em palácio, cercado de uma populaça carrancuda que agarrou em chuços, arranjou uma bandeira no alto de um pau e vem impor esta fórmula prodigiosamente desagradável para el-rei: diminuição de autoridade régia e aumento de liberdade pública…

Se el-rei conserva por trás do palácio alguns regimentos fiéis, enverga nesse momento a farda de generalíssimo e manda acutilar o seu povo: se desgraçadamente, porém, os soldados estão unidos aos cidadãos, então el-rei declara-se coacto, pede a um rei vizinho, mais forte e menos atarantado, que lhe mande uma divisão, a restabelecer a ordem – isto é, a assegurar a sua majestade a sua soma intacta de autoridade régia, dispersando a tiro a tentativa de liberdade pública. Isto hoje já realmente se não usa na Europa: mas no Oriente, ao que parece, é ainda um método muito decente de acalmar os descontentamentos nacionais.

O quediva, esse excelente e pacato moço, tinha sido vítima de um pronunciamento planeado, à maneira espanhola, mas posto em cena à moda turca. Um coronel. Arabi Bei, que em breve ia ser o famoso Arabi Paxá, apresentou-se com outros oficiais no palácio e depois do salamaleque, que na etiqueta turca consiste em beijar devotadamente a aba da sobrecasaca do quediva, como nos em Lisboa beijamos a túnica de Santo António, lembrou a sua alteza a necessidade de fazer reformas, algumas puramente militares e em proveito dos coronéis, outras políticas, para bem da grande populaça felá, e tão largas que constituíam uma mudança de regime.

Sua alteza escutou, murmurou aquelas frases sobre o amor da nação, a felicidade dos súbditos que o cerimonial indica nas ocasiões de atrapalhação régia, e pareceu tão satisfeito com o interesse que aqueles oficiais tomavam pela prosperidade do vale do Nilo que os recompensou à maneira oriental – convidando-os a um banquete.

Em torno da festiva mesa a cordialidade foi grande, o champanhe espumou contra as prescrições do Alcorão e, entre o sabor das trufas e o aroma dos ramos, o futuro do Egipto apareceu cor-de-rosa. O café foi servido, nos jardins: e quando de um lado entravam os escudeiros com os licores, do outro surgiram beleguins com algemas. Arabi e os seus camaradas, levando ainda na boca o último charuto que lhes oferecera sua alteza, foram conduzidos às palhas do cárcere.

Não há nada mais delicioso – nem mais turco.

A Europa toda, a quem agrada a energia, aplaudiu com estrépito a energia de sua alteza!

Publicado em: on 03/02/2011 at 18:51  Deixe um Comentário  

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